sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Violeta

I
A mulher vai subindo a cordilheira
E por que está a escalar?
Para alcançar visão mais altaneira
Do alto-céu maldizer a terra inteira,
Com a força de seu cantar.

Seu sangue fervendo atormentado
Irá deslizar pela escarpa
O sangue de seu peito dilacerado
O sangue de seu amor desesperado,
Ela irá tanger a sua harpa.

II
No Chile todos os pássaros
Todas as pedras e cântaros

Silenciarão por um instante
Ao longe o solitário navegante

Pressentirá a terrível tempestade
O ventre da terra uma dor já invade

O alto-céu rajado e possesso
Anuncia um excesso
E em seu mais fundo recesso
Na mais ignota voluta
Dar-se-á terrível luta
Explodirá um abcesso
No ventre esfomeado da terra

E um temor e tremor de guerra

Uma dor sem cura
Uma lucífera loucura

Irá dilacerar a Eterna Justiça

III
Porque essa mulher está desesperada
Porque essa mulher quer que todos ouçam sua maldição
Porque essa mulher está irremediavelmente perdida
Pois a dor de seu amor é mais forte que a morte, maior que seu coração
E sua transbordante ferida não cessa de sangrar

IV 
Porque essa mulher é mens-ageira
Porque essa mulher é uma guerreira
E sua poesia e luta se destinam a terra inteira

V 
Trás consigo o sal
Contra o mal
Leva consigo o sul
É filha do sol
E da lua
Violeta nua

Assim tão sem peso
Leve dançarina
Assim tão sem garra
Tão isenta de violência
Assim, tão desumana.

Violeta Parra.


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