(para Salles Dounner, pintor e poeta francano)
Escrevo
estas palavras
À beira do precipício
Mas não serão escravas
Do medo do extermínio
À beira do precipício
Mas não serão escravas
Do medo do extermínio
Escrevo
estas palavras
À beira do precipício
Eis aqui o início
Do vôo destas asas
À beira do precipício
Eis aqui o início
Do vôo destas asas
Escrevo
estes versos
À beira do abismo
Escutando dos submersos
A revolta contra o egoísmo
À beira do abismo
Escutando dos submersos
A revolta contra o egoísmo
Inscrevo
este poema no muro
Na minha cara e na sua cara
Não tem nenhuma rima rara
É merda expe-lida do furo
Na minha cara e na sua cara
Não tem nenhuma rima rara
É merda expe-lida do furo
Escavo
este poema na terra
Em busca de um povo
Que em si encerra
Uma nova fé dentro do ovo
Em busca de um povo
Que em si encerra
Uma nova fé dentro do ovo
Traço
de poesia o espaço
Me equilibro todo bamba
Sobre a corda bamba
Se apagarem refaço
Me equilibro todo bamba
Sobre a corda bamba
Se apagarem refaço
Não
escrevo à pena
Escrevo com prego
O estilo que emprego
Não faz cena
Escrevo com prego
O estilo que emprego
Não faz cena
Entrega
no ato
O contato
Pele a pele
Do desejo que impele
O contato
Pele a pele
Do desejo que impele
Deixo
aqui esta marca
Que não é de marca
Pode ser parca
Mas arca
Que não é de marca
Pode ser parca
Mas arca
Com o
risco
De não pagar o fisco
De ser de tom arisco
Não recuso arrisco
De não pagar o fisco
De ser de tom arisco
Não recuso arrisco
É com
prego e martelada
É com uma fome desgraçada
Que escrevo este poema desdentado
Este poema descarado
É com uma fome desgraçada
Que escrevo este poema desdentado
Este poema descarado
Este
poema rotundo
Esfera de miséria
Do grito mais profundo
Da voz mais ébria
Esfera de miséria
Do grito mais profundo
Da voz mais ébria
A
miséria não tem nome
A miséria esférica
Que envolve tudo em lama e fome
A nudez cadavérica
A miséria esférica
Que envolve tudo em lama e fome
A nudez cadavérica
Exposta
nas ruas
A miséria crescendo lodo
Revestindo as crianças nuas
Olhe a si olhe ao lado
A miséria crescendo lodo
Revestindo as crianças nuas
Olhe a si olhe ao lado
Este
lodo nos investe
De uma escandalosa indigência
Impregnada nas axilas
E no sêmen que toma o ventre de peste
De uma escandalosa indigência
Impregnada nas axilas
E no sêmen que toma o ventre de peste
Escrevo
diante dos cães sem residência
De gente das quais não se encontra parente delas
Que não tem datas que não tem o tempo marcado
Gente que vive neste mundo humano
De gente das quais não se encontra parente delas
Que não tem datas que não tem o tempo marcado
Gente que vive neste mundo humano
No
qual sobrevivem
Escrevo diante os analfabetos
Diante os índios e os que estão
Por trás das grades confinados
Diante os fatos e os fetos
Rejeitados e descartados
Diante os desterrados
Os humilhados
E os esquecidos
Escrevo diante os analfabetos
Diante os índios e os que estão
Por trás das grades confinados
Diante os fatos e os fetos
Rejeitados e descartados
Diante os desterrados
Os humilhados
E os esquecidos
Diante os que se esvaem de desejo ardente
Dos que se negam diante à caducidade do mundo à trabalhar
Dos loucos dos que se perderam em amar
Diante o sol escaldante diante o presente
É com
este prego enferrujado
Que minha mão traspassada
Grava este poema indisciplinado
Diante esta fachada
Que minha mão traspassada
Grava este poema indisciplinado
Diante esta fachada
Contra
a qual me choquei
E me gastei até a medula
Aqui neste beco cantei
Minha art-nula
E me gastei até a medula
Aqui neste beco cantei
Minha art-nula
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