sábado, 12 de outubro de 2013

Poema-Nulo: Escrito num muro.

(para Salles Dounner, pintor e poeta francano)

Escrevo estas palavras
À beira do precipício
Mas não serão escravas
Do medo do extermínio
Escrevo estas palavras
À beira do precipício
Eis aqui o início
Do vôo destas asas
Escrevo estes versos
À beira do abismo
Escutando dos submersos
A revolta contra o egoísmo
Inscrevo este poema no muro
Na minha cara e na sua cara
Não tem nenhuma rima rara
É merda expe-lida do furo
Escavo este poema na terra
Em busca de um povo
Que em si encerra
Uma nova fé dentro do ovo
Traço de poesia o espaço
Me equilibro todo bamba
Sobre a corda bamba
Se apagarem refaço
Não escrevo à pena
Escrevo com prego
O estilo que emprego
Não faz cena
Entrega no ato
O contato
Pele a pele
Do desejo que impele
Deixo aqui esta marca
Que não é de marca
Pode ser parca
Mas arca
Com o risco
De não pagar o fisco
De ser de tom arisco
Não recuso arrisco
É com prego e martelada
É com uma fome desgraçada
Que escrevo este poema desdentado
Este poema descarado
Este poema rotundo
Esfera de miséria
Do grito mais profundo
Da voz mais ébria
A miséria não tem nome
A miséria esférica
Que envolve tudo em lama e fome
A nudez cadavérica
Exposta nas ruas
A miséria crescendo lodo
Revestindo as crianças nuas
Olhe a si olhe ao lado
Este lodo nos investe
De uma escandalosa indigência
Impregnada nas axilas 
E no sêmen que toma o ventre de peste
Escrevo diante dos cães sem residência
De gente das quais não se encontra parente delas
Que não tem datas que não tem o tempo marcado
Gente que vive neste mundo humano
No qual sobrevivem
Escrevo diante os analfabetos
Diante os índios e os que estão
Por trás das grades confinados
Diante os fatos e os fetos
Rejeitados e descartados
Diante os desterrados
Os humilhados
E os esquecidos

Diante os que se esvaem de desejo ardente
Dos que se negam diante à caducidade do mundo à trabalhar
Dos loucos dos que se perderam em amar
Diante o sol escaldante diante o presente
É com este prego enferrujado
Que minha mão traspassada
Grava este poema indisciplinado
Diante esta fachada
Contra a qual me choquei
E me gastei até a medula
Aqui neste beco cantei
Minha art-nula

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