quarta-feira, 2 de abril de 2014

Nunca cruze as mãos de um poema

Por demais angustiante
As mãos de um morto
Sobre o peito impassível,
É o que sinto, aqui absorto,
Diante o indizível.

Isso vem da triste encenação
À qual o infeliz é submetido
Tendo que passar a impressão,
Após ter lutado e vivido,
De estar tranquilo a descansar.

Tudo isso é manha para disfarçar
A angústia verdadeira e extrema
Que é a sua misteriosa condição
De estar morto ou ser poema.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Ao poeta

                                                             (Foto: João Machado)

Meu caro, poeta,

edificaram uma estátua para ti
com cabeça (e óculos), tronco e membros,
mas, e o sentimento do mundo?

Agora que estás morto
como morto está também seu desejo
e o céu saqueado e de costas
estás para o mar, a contemplar
todos nós que ainda não nos libertamos

Agora que és de pedra de bronze
agora que tuas mãos e teus braços
quedam inertes e impassíveis
quando tuas retinas mesmas
são pétreas e sem cansaço - ah poeta -

a fome, a solidão, a miséria,
vêm deitar sobre seu colo, que desconsolo.

O amor de um poeta
a rosa de um povo
a pobreza da poesia
este país que nos engana
"Ai de mim, Copacabana, ai de mim!"
este menino que dorme sobre tua estátua

e que nunca leu teus versos.

Teu lago está podre.
Dirão: aí são outros quinhentos.

Mas, se cante ou cale (o mundo valer não vale) -
vede - a barbárie dos sofrimentos
o abandono e a solidão de cada pessoa que,
malgrado, tem um sangrento coração.
Não, não fale (o mundo valer não vale).
Deixe o menino dormir. Pois, o dia está aí para destruir sonhos.

segunda-feira, 17 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Transmutações

E quando tentaram me pegar
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como o vento
E quando tentaram me impedir
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como a água
E quando tentaram me guiar
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como fogo
E quando tentaram me mover
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como a terra
Tudo isso porque haviam visto
Que eu era tão vulnerável
Como uma flor ao florescer.

domingo, 2 de março de 2014

Impaciência

Não suporto mais

Tanta paciência

E diante a sapiência

Dos sábios imortais


Digo que a impaciência

Também sabe o que faz

Podem dizer que sou incapaz


De tal arte e que a prudência não erra


Mas ouçam o que vou falar

Quem tem fome e amor sobre a terra

Não pode esperar.

Conversa entre duas velhas sentadas na varanda.


- Fico boba de ver. Nesse mundo de terra a gente não vê 

uma cabeça de vaca, nenhuma roça de nada.

- É mesmo.

(Trinta segundos depois)


- Eu não sei, nesse mundo de terra e a gente não vê uma 


  cabeça de vaca, nenhuma plantação de nada.

- Nossa, é mesmo.

(Trinta segundos depois)

- Credo, que calorão.

(Sem resposta)

(Trinta segundos depois)

- Que calorão.

(Sem resposta)

- Cê dormiu aí?

- Hum, ah, dei uma cochilada.

- Todo mundo deve tá dormindo, né?

- Ah, é, deve sim. Profundamente.

(Algum tempo depois)

- Olha, não tem uma criação, nenhuma plantação.

- Só arvore.

- Então né sô.

(Trinta segundos depois)

- Nossa, que calorão, credo.

- Hum, Hum, é... .

(Trinta segundos depois)

- Que lugar parado, não passa nada.

(Sem resposta)

- Cê dormiu?

- É, dei uma cochiladinha.

- Que lugar parado.

- Só tem arvore.

(Trinta segundos depois)

- Olha aquela roça de milho, passou da hora de cortar, tá 


seca já.

- Tá mesmo. Olha as andorinhas.

(Trinta segundos depois)

- Não tem um ventinho.

- Não tem.

- Que calorão credo.

(Trinta segundos depois)

- Deve tá todo mundo dormindo.

- É deve sim, depois do almoço.

- Como se diz, que falta faz o marido da gente, se ele 


tivesse aí, como se diz, a gente tava aí aproveitando a vida.

(Sem resposta)

- Cê dormiu?

- Dei uma cochilada.

- Que lugar parado, credo, não tem uma cabeça de vaca, 


nenhuma roça de nada. Não passa um ventinho.

- Então.

- olha aquela roça de milho, já tá seca, passou da hora de 


cortar.

(Assim segue até que chegue a morte)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

***

Guardei todas as facas e os espelhos
No algodão o perfume de seus seios
No coração sangrento todas as dores
Do crime brutal contras estas flores.

No jardim chora a estátua do abandono
Que meus olhos sem vida nem sono
Contemplam tristemente a pétrea imobilidade
Enquanto o luar desce seu manto de soledade.

Meu sangue perdeu sua eloquência
E minhas mãos a inocência
De escrever o que sua ardência
Falava em mim das profundezas.

Estou só e a estrela me sabe
Estou só e a vida não cabe
Morrerei de todas as delicadezas
No pó onde tudo se acabe.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

***

Amar é estar vulnerável
E esta é a grande fraqueza
Que nos torna forte e delicados
Feito ninhos e também a maior sinceridade.

Diante o amor descobrimos o que e quem
Está por trás das ações, pois, é o amor,
Que o fez único e livre.

O que se faz diante à flor, diante à criança.

***

De que vale o mundo, meu bem,
com suas portas, se todas elas me levem
para onde você não está e onde não quero estar?
De que servem todos os lugares,
se por eles tudo é fadiga e pesares?

O mundo com suas janelas
se não há você em nenhuma delas
se de nenhuma eu posso repousar o olhar em ti
como sobre uma ilha e tudo o que resta
é o vago horizonte sem espessura?

Você é a água aflita que eu sugo na terra.

De que valem, meu bem,
todas as portas e janelas deste mundo
se você, flore entre flores, era o perfume íntimo
que dele emanava? E o vento não é cruel nem frio,
é sim um cachorro vadio. Quê importam?
Se tudo que por elas agora transita (sem cor nem cheiro)
é insensível à tintura poética, à minha solidão?

Quê importa a liberdade?
Se sem você não tenho braços nem pernas
que foram dilacerados nesta tarde de chuva com sol
quando te disse adeus e desistimos do amor
como se largássemos  brinquedos
como as crianças que sem saber os deixam, pela última vez,
sem saber que quando voltarem a vê-los
já estarão crescidas e não saberão mais como pegá-los
e a pureza se mostrará, tal qual é, um mito.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O rei e o mendigo

(para o poeta conhecedor da linguagem dos pássaros, Attar)

I

Um homem se perdeu
De amor por seu rei
E de amar quase morreu
Na noite do tormento mais atroz:

Por ele, ó majestade, chorei,
Até que lágrima se fizesse sangue
De companhia, no deserto, apenas minha voz,
Na mais dolorosa solidão.

Mas ainda meu peito plange
Resta um acorde em meu coração
Sou apenas um mendigo
Que poderia um rei querer comigo?

Contudo, antes que eu morra,
Antes que ele se dissolva no ar
É preciso que o rei se disponha a escutar
Vamos, vá cavalo, corra!

Talvez aos seus ouvidos
Se revele o sentido
Do acorde comovido
E estes meus segredos.

II

Ai, homem inebriado,
Me espanta e me encanta
Vossa coragem, pobre coitado,
E sua voragem, esta secura em sua garganta.

Porém, eis onde seu amor
Te trouxe pelo deserto da dor
Ou morrerás para estas terras
Ou morrerás de uma vez para tudo.

Podes optar, enfim... (por que medras?)
Pelo exílio ou seu próprio fim
E assim deixar este mundo
Eis a minha resolução.

III

Amado, se esta é minha situação,
Escolho o triste exílio e seu amargor
E lá, seguirei te adorando, seja onde for,
Esta é minha opção.

IV

Cortem já a cabeça
Deste homem perdido
Antes que escureça
Quero vê-lo partido!

Não és vero amante
Para isso se ver
Não carece nenhum clarividente
Está patente, não sabes morrer.

Como então podes amar
Aliás, como podes assim viver?

Falso amante, toda sua dor foi vã,
Assim como vazio é seu penar
Se perdeste em sonhar
E todo seu sonho é mero afã.

Tu se vanglorias, ó presunçoso,
Contudo, em seu coração,
Ao invés de amor, amor precioso,
Há apenas inglória pretensão.

Preferiste tua cabeça, mentiroso,
Que importa, agora, suas horas de aflição,
Se quando diante de seu rei amoroso
Tomaste tal decisão?

Fica sabendo, estranho mendigo,
Que se tu trilhasse a via do amor
Eu seguiria caminhando contigo
Compartilhando as asperezas e o esplendor.

Apenas com loucura e delicadeza
Sem força nem espada
Em sua nua pobreza
Terias toda essa terra destronada.

Contudo, não és homem de ação,
Tal homem não delibera nem escolhe
Então, agora que plantaste colhe,
Sempre a velha e nunca aprendida lição.

Não te esqueça, meu caro,
Que se fosse amor verdadeiro
O que há de mais difícil e raro
Ofereceria eu minha cabeça e poderio.

Terias um fiel e íntimo amigo
E o rei serviria ao mendigo.

Que ninguém se vanglorie
Nem se arrisque sem forte resolução
Sem que seu peito irradie
E aberto esteja seu coração.

Que ninguém venha me seduzir
Quando nada sabe de si
Nem possa se conduzir
Na via sem medida do amor.

É o que digo para ti, inútil sofredor.
Afinal, que sou eu para ser digno da graça de amar?

Como tu cheguei a este mundo animalizado
Com fome e desabrigado
E assim o deixarei
Não obstante se fui rei.

Nada obsta meu frágil poder
Mesmo que vasto
De tudo isso me afasto
Quando morrer.

Bem possível que nem a história nos acolha
Quando sobrevier a inevitável mortalha
Se de mim se lembrarem será por batalha infame
E fátuo, vão, será o meu nome.

Se fosses vero amante, fiel amigo,
Talvez, por extraordinário enlace,
Muito mais tarde diriam do rei e do mendigo
Em um poema que nos engrace.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tua vida
Cabe tao bem
Em minha ferida.

Ambiçao

 (imagem: Alfred Kubin)

Os chamados homens de ação
aqueles com as melhores intenções
os adoradores do progresso
os guias e os instrutores
os que cobrem de pó e dores
o corpo e o martirizam
aqueles que fecharam a boca
e pregaram a língua
aqueles que se embrenharam
no isolamento
os heróis de prontidão

Nus ou cobertos de todas
as pompas e púrpuras
qual seres extraordinários
livres de todas as necessidades

Só fazem por intensificar
a nódoa da ambição

Sob teto de ouro ou a tenda de estrelas
no deserto ou na cidade

Ó insensato
assim como chegaste
e entraste no mundo
assim o deixará
com fome e desabrigado.

Triste de quem os viu à todos
neste misterioso teatro
e os condenou
mais triste quem os viu
e em seu coração a chama
da esperança se acendeu nas cinzas.

Ai, desgraçado, arrastando
esse fétido e monstruoso
monturo.

Têm a resposta, senhores?
Então, por que não vêem
e me libertam desta loucura?!

Estão escondidos por trás
destas barbas
mas sinto que os piolhos
e as pulgas da vergonha
e da mentira os devora.

Deixem-me cá com a minha loucura!

Não seria melhor a mais atroz loucura
o mais louco amor
que tomar lugar
no horrendo e lento desfile
do cadáver deste hediondo animal
da carcaça do mundo?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

dor
mais doída
é aquela decorrida
de demasiada ternura.

morte
mais sofrida
consorte da loucura
de extrema leveza
a morte de delicadeza.
Não se pode pisar a terra
Sem sujar os pés. Não se pode
tirar os pés do chão sem se queimar.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sono e morte

Noite sem guerra
Noite sem paz
Noite de sono
Sem sonhos
É pra quem morre
A cada instante
E a todo dia.

Apercebimento

Olho a chuva sob o telhado
E isso me parece a razão
De toda a tristeza
Que me tem agasalhado
Mas a tristeza provém
De eu estar pensando nisso

E não observando

E assim sempre me separando

Num triste isolamento

De acordo com o qual não sou a chuva
Com seu tormento.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Poesia

A poesia
não pede
licença
não pede
nem dá
esmola
ASSALTA
ela fugiu
da escola

Despertador.

A menina despertou
quando o galo cantou
e antes de se levantar
pensou: 
Quem dá corda nos galos?

Vai saber...

Ela foi se aproximando
adentrando penetrando
tomando tudo tudo
O que era flexível
macio foi ficando
todo duro
Intratável.

Quem ela, o que?
(imaginando)

A morte e o pé
da minha avó

Que eu estava massageando

Sem dó, sem fé.

Mirada

(para Arnaldo Antunes)

mirei e asso
prei
a estrela
caiu no buraco
do meu olho
vi que vi
ver não tem volta.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Do pranto e do amor

Tu choras e teu pranto
É franco e compassivo

Frente ao sofrer e a dor
E isso te enches de espanto
Ao constatares de modo inclusivo
Que ainda és capaz de amor.

Pela manhã

Abri a porta de casa
E o sol com um golpe de asa
Entrou e subiu a escada
Minha visão ofuscada
Não revelava o mensageiro
Não discernia sua figura por inteiro
Envolto em coruscante cabeleira
Mas ali lambendo a soleira
Estava o mar espumando
Entre os dedos dos meus pés.

 


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Soneto

Tu choras e teu pranto
É franco e compassivo
De todo intempestivo
Isso lhe enche de espanto

Frente a dor e o penar
Ao subitamente constatares
Que a pesar dos pesares
És ainda capaz de amar

Então, todo distante faz-se próximo
E por sobre todo abismo uma ponte
E do mínimo o máximo

O mais estrangeiro é-lhes íntimo !seja seu opressor!
Da ignorância e do sofrimento provastes na fonte
E na aparente guerra de vida e morte, pôs fim, o amor.

Uma visão de Jonathan

(para Adélia Prado)



Quando você chegou fez-se luz em meu viver. Você veio carregando o dia. No escuro não chegava ninguém e meus lábios brancos encerravam o segredo da noite. Você veio carregando o dia ser luminoso. Trazia nas mãos coroadas um vaso com peixes nadando em um vinho maravilhoso, que bebia-se feito água. Vinho que me inebriou de luz e sangue vivo com seu corpo que me curou de toda a treva e na solidão silente do meu coração vieram cantar os pássaros do dia. Dia que você vinha carregando nas mãos coroadas de rosas e estrelas, dia em que surgiram lágrimas novas e eram doces de teu vinho e vivas de tua luz e puras como o seu corpo e a música alimentava o pasto de eternidade. Isso foi quando você chegou.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A solidão e os pássaros

I

Os pássaros
Devido a solidão
Quando já cansados de cantar
Vêm pelos espaços
Para morrer em meu coração.
Pode até ser bonito de imaginar
Mas é profunda a desolação
Desse ermo horto
Pois havia amor e canção
Em cada passarinho morto.

II

É tanta solidão
Que pássaros vêm comer
Em meu fogão
Compartilho com eles migalhas
Do que me resta pelo chão
Não são meus amigos, mas não são canalhas,
Apenas vêm e vão com suas asas, como sonhos.

No movimento da rua.

Ela acordou naquela manhã, com o suave calor solar que lhe banhava as mãos, que estavam à janela e que como duas plantas tinham buscado a luz enquanto ela dormia entre as raízes. Sentiu um conforto, quase uma alegria, quem sabe a esperança de um ultimo voo, como devem sentir os moribundos se têm a chance de provar o calor iluminado do sol em suas frágeis e implorantes mãos.

De repente, com o vento veio uma pequena borboleta amarela e pousou em um daqueles lírios brancos, surpreendentemente. De repente, virei a esquina com toda aquela gente e tudo se perdeu, mas ficou este poema da janela desconhecida, surpreendentemente, para a pobreza cotidiana.

Tudo isso que ninguém dá falta

Os pássaros
Devido a solidão
Vêm pelos espaços
Morrer em meu coração

Todas as notas soltas
Que se perderam na tarde
Depois de voltas e voltas
Encontraram-se aqui sem alarde

E ao redor de mim
Fazem essa estranha canção
Sem começo nem fim
Sem tema nem refrão

Todas as cartas extraviadas
E principalmente aquelas
Onde apaixonados suicidas
Comunicam os saltos pelas janelas

Tudo isso que ninguém dá falta
A andar à malta
Veio hoje ter comigo
Em busca de abrigo. 

Tiradinha

Deve haver algum barato
Em se ser um humano.
Mas é aquilo - às vezes
O barato cai caro.

Soneto schopenhaureano

No mais íntimo da vida
O sofrimento essencial
De acordo com o qual
Toda exultação é descabida.

Posto que a felicidade
Autêntica e permanente
Não pode completamente
Preencher a vida em totalidade.

Nem mesmo com a arte, afinal,
É possível fazê-la manifesta -
Impossível, irreal.

E ao findar da festa
Quando a peça atinge o ato final
Deixar cair as cortinas é tudo que nos resta.

sábado, 18 de janeiro de 2014

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Quem és tu?

Te procuro
No escuro
Como vai
Um barco

Na rua
Como vai
Um bebido

Na lua
Como vai
O mar
E o sangue

Te procuro
Na luz
Como vai
Um pássaro

Te procuro
Como vai
A chama
À escuridão

Na cama
No rés do chão
Na palavra crua
Na carne viva

Tu quem procuro
Quem és tu
Que te procuro
Estarrecido

Como vai
Um gesto
Ao desconhecido

Como vai uma
Carta extraviada

Como vai uma
Nota insólita solta
Na noite silente

Como vai uma
Visão ao vidente
Como um equilibrista
Parece ir ao inexistente

Como vai
Ao perigo a criança
E o corpo à dança



Um poema

Um poema sem começo nem fim
Sem voce e sem mim
Um poema louco
Completamente louco
Mas de um loucura difícil
De ser concebida.
Um poema como bebida
Forte - difícil de ser engolida.
Um poema como veneno.
Obsceno violento lento.
Como o brilhobscuro
Que jorra de seu peito
De seu sexo aberto
Rosa noturna que me entorna.

Do Amor Que Nao Ousa Dizer Seu Nome.

Sabes aquele gosto
Aquele gosto de nada
Da água? - Entao, é o amor.

Aquela palavra que nao é nem vida nem morte
E que é vida e morte ao mesmo tempo (vidamorte)
Aquela palavra perdida sempre reencontrada
Impronunciável e sempre repetida - o amor.

Aquele momento de graça entre vida e morte
Quando elas se tocam com inocência e ternura
E sangue e luz se unem no casamento
Do caos sangrento com a alma pura - o amor.

Sabes aquela fermentação obscura
Aquele mel fumado com haxixe
Aquela embriagues que antes de ser vinho
Já está nas uvas - o amor.

Água é vinho para quem vive em liberdade
Vinho é água para o sedento que tem sede de amor.

Sentir-se pluma e ave ao mesmo tempo - amor também.

Aquela felicidade sagrada de quem perdeu tudo
E sabe que poderia ter sido pior - amor.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Cabimentos e Descabimentos

Em uma criança
Cabem todas as perguntas
Em uma só flor
Todo um maravilhoso reino
Em uma gota oceano
No som da flauta eternidade
Em meu coração - toda a solidão
Que é pra caber todo o mundo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CONVITE.

(em visita a Casa Dom Inácio de Loyola. 08 a 10/01/2014)

Adentrai, amigo;

Eis o jardim de todos os lugares.

Adentrai, amiga;

Este é o santuário de todos os amores.

Adentrai, irmão;

Este é o retiro de todas as dores.

Adentrai, irma;

Eis o guardião de todas as flores.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Enquanto dormia

Enquanto dormia
No leito
Viestes sombria
No peito
E nele plantastes
Negras sementes
No veio

Donde veio
A lume
Esta flor misteriosa
De estranho perfume
Forte e vicioso
Perfume venenoso
Da flor do ciúme
Que mata silencioso
E mui amiúde.
Em teu peito brilha
Solitária uma estrela de prata

Luz de tua maravilha
Em teu peito prodigioso

Nele lanço as sementes
Jardim misterioso
De flores celestes.


Quem és?

Percorro toda a casa minha
Com presumida altivez
Mas quem será esta menina
Que me chama em português?
De quem será esta voz fina
Que me corta os pulsos
Que revela fundos-falsos
Que vai em saltos
Pelas escadas
Que me guia até as sacadas
Que some porentre o jardim
Que chora como uma vela
Que me aparece a janela?
És a minha morte? Precisas de abrigo?
Que queres comigo, meu calor?

Aos companheiros

Querem sabotar, destruir a máquina-de-fazer-medo?
Simples, meus caros, destruam a máquina-de-fazer-felicidade.