Alexandre Magno Jardim Pimenta,
O poeta quem saúda às coisas ou elas deitam aos pés do poeta?
No fervor criativo encontra em tudo o devido valor, cada qual em potência singular.
Só a poesia atravessa os muros do outro em nós.
Saio da carta que escreveu para seu filho
como Dom Quixote entra numa batalha.
Será que existe diferença entre a poesia e o amor?
De seu amigo irmão Rafael Coelho.
(31/12/2013)
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
domingo, 29 de dezembro de 2013
Do silencio.
Todo verdadeiro poema
É anonimo,
Assim como toda açao correta,
Do silencio do nosso coração
É que floresce o poeta.
É anonimo,
Assim como toda açao correta,
Do silencio do nosso coração
É que floresce o poeta.
Meditação
A chama do amor
Meditando na boca do silencio
É imensurável.
O amor é a flor do presente-vivo.
Meditando na boca do silencio
É imensurável.
O amor é a flor do presente-vivo.
Das invenções
(para Herberto Helder)
Na verdade
Em primeiro lugar está o tempo
Em que nada dura
Vem em segundo os espelhos
Como a invenção humana mais impura.
Por esta triste combinação
Criaram todas as máquinas
De fazer ilusão, inclusive,
A mais terrível delas
Com toda a sua celeridade
A máquina de fazer felicidade.
Na verdade
Em primeiro lugar está o tempo
Em que nada dura
Vem em segundo os espelhos
Como a invenção humana mais impura.
Por esta triste combinação
Criaram todas as máquinas
De fazer ilusão, inclusive,
A mais terrível delas
Com toda a sua celeridade
A máquina de fazer felicidade.
Entre-horas
Todas as horas vao
Em vao a variar
Entre o passo do medo
E da esperança - mas conduzidos
Nesta contradança, como amar?
Em vao a variar
Entre o passo do medo
E da esperança - mas conduzidos
Nesta contradança, como amar?
A beira do rio
Vou escrever estes versos
A beira deste obscuro rio
Nossos destinos inversos
Solidão no horto sombrio.
Das cartas que nao me escreves
Faço barcos de papel, tao leves,
Que parecem (indeléveis) flutuar
Sobre as horas breves.
Tao belos como meu amor
Sao barcos de cantar
Na correnteza do rio
O chamado do mar
Para os quais tristemente sorrio.
Essa tristeza que nao vem da sua ausência
Que nao vem dos seus olhos morenos
Mas dos vis venenos da aranha de prata
Que tece nossos destinos
E depois atira nossa carcaça ao mar de escarlata.
Mas dos vis venenos da aranha de prata
Que tece nossos destinos
E depois atira nossa carcaça ao mar de escarlata.
Todas as horas variam
Entre medo e esperança
Apenas seguimos desvairados
Nesta contradança
Em que somos conduzidos.
Fico aqui contemplando
Como contemplam as arvores
Contudo meu olhar é triste
E meus olhos chorando
Veem mais um barco ir
De mastro em riste.
sábado, 28 de dezembro de 2013
Se pudesses ver, meu caro.
Se pudesses ver, meu caro, do campo abandonado do seus
olhos, a terrível surpresa da dádiva fatal nos olhos dos
recém-nascidos que, subitamente, perfurados pelos raios do
sol que traspassam as grades carcomidas do mundo,
resumem, violentamente em uma inocente afirmação, a fome
e sofrimento de todas as eras. Se pudesses ver, meu caro, do
campo ermo dos seus olhos, a terrível surpresa da dádiva
fatal nos olhos dos prestes a morrer, teria neste ermo,
marcado em suas retinas a impressão de dois pássaros que
se chocaram com a concretude da ilusão, violenta e
magnificamente.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Despertar
O mundo despertou para o dia
Destruir sonhos e tenho febre
Que arde na carne do universo
Tenho fome e nenhum apetite nenhum apetite
Morro de fome e nao quero nada
Nao quero nada deste mundo
Onde há sempre alguém a postos
Para enxotar quem tem fome e apetite
Em que há alguém sempre pronto
Para fazer do seu cu e da sua boca
Algo sagrado mas é tudo um nojo só
Meu nojo que pesa como o sol
Que com seus raios vem lamber
Todos estes olhos todas estas bocas com flores e morte.
Destruir sonhos e tenho febre
Que arde na carne do universo
Tenho fome e nenhum apetite nenhum apetite
Morro de fome e nao quero nada
Nao quero nada deste mundo
Onde há sempre alguém a postos
Para enxotar quem tem fome e apetite
Em que há alguém sempre pronto
Para fazer do seu cu e da sua boca
Algo sagrado mas é tudo um nojo só
Meu nojo que pesa como o sol
Que com seus raios vem lamber
Todos estes olhos todas estas bocas com flores e morte.
A palavra amor
A palavra amor é suja
E pela dita cuja
Se fez mais guerra
Do que por tudo na Terra.
A palavra amor é suja
Qual pau de galinheiro
Qual papel de dinheiro
Mais triste que puteiro
Mais falsificada que o rosto de Jesus.
Quero pingar limão
Na sua ostra
Quero ver sua mao
Na boceta da outra.
A palavra amor
Cheira a fétido suor
Cheira a medo de morrer
E ao vil poder.
É mau feito um pau duro
Prontinho pra foder.
A palavra amor é nula
Idiota de quem a engula
Pobre de quem a cuspa
Como ideal ou desculpa.
Chupa, chupa, chupa,
Chupa até sangrar.
A palavra amor
Tem do sangue o gosto terrível
De nada. O sangue de amar.
O sangue de tanta criança massacrada.
A palavra amor
Em sentido sagrado ou profano
Na boca do ser humano
É puro desengano e dor.
A palavra amor
Está repleta de poesia
Poesia que somente les
Mas sua vida continua tao vazia
Como a palavra amor. Ves?
E pela dita cuja
Se fez mais guerra
Do que por tudo na Terra.
A palavra amor é suja
Qual pau de galinheiro
Qual papel de dinheiro
Mais triste que puteiro
Mais falsificada que o rosto de Jesus.
Quero pingar limão
Na sua ostra
Quero ver sua mao
Na boceta da outra.
A palavra amor
Cheira a fétido suor
Cheira a medo de morrer
E ao vil poder.
É mau feito um pau duro
Prontinho pra foder.
A palavra amor é nula
Idiota de quem a engula
Pobre de quem a cuspa
Como ideal ou desculpa.
Chupa, chupa, chupa,
Chupa até sangrar.
A palavra amor
Tem do sangue o gosto terrível
De nada. O sangue de amar.
O sangue de tanta criança massacrada.
A palavra amor
Em sentido sagrado ou profano
Na boca do ser humano
É puro desengano e dor.
A palavra amor
Está repleta de poesia
Poesia que somente les
Mas sua vida continua tao vazia
Como a palavra amor. Ves?
Amor
A palavra amor é suja
Qual pau de galinheiro
Qual papel de dinheiro
Mais triste que puteiro
Mais falsificada que o rosto de Jesus.
Qual pau de galinheiro
Qual papel de dinheiro
Mais triste que puteiro
Mais falsificada que o rosto de Jesus.
No horto
Era uma vez uma dama
Que pela luz de seu olhar
Acendeu azulada chama
Do fogo eterno de amar.
Chama benigna e sutil
Que de moça fez mulher
Por esta paixão inconsutil
Que hoje me faz morrer.
Nem a luz nem o sal
Nem a visão nem o gosto
Há um secreto mal
No oco do meu rosto.
Solitário neste horto
Aparece este animal
Que lambe meus olhos
Como de um morto.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Lágrimas
Minhas lágrimas
Tristes ou alegres
Frias ou ardentes
Sao gotas amargas
De olhos frementes.
Suas lágrimas
De olhos incontinentes
Por motivos diferentes
Sao gotas salgadas
Nestes lábios dormentes.
Independente de motivo
Sao gotas do mesmo mar
Diz meu coração cativo.
Qual é o significado
Destas lágrimas
Destas águas
Neste mar aprofundado?
Além ou aquém
Do meu ou do seu pranto
Do pecador ou do santo
Nesta e naquela margem
Jorra a mesma água.
Independente da mágoa
Ou da satisfação
Do meu e do seu coração
É o mesmo jorro que nos une
Do qual, talvez, ninguém está imune.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Carta de anos
Miguel Angelo,
hoje, segunda-feira, 23/12/2013, você faz anos, completa dez anos de vida neste nosso mundo.
Você, meu filho, com sua luz, alegra meus olhos e seu sorriso a cada vez que se abre espalha o colorido do dia com todos os seus sons. E, eu lhe saúdo, como agradeço esta manha que é única como tudo o que vive e respira.
Meu filho, nao quero lhe dizer o que deves ou nao fazer, muito menos lhe dizer o que você deveria ser; Espero, apenas, que caminhemos juntos e assim compartilhemos a maravilha indescritível de viver - Que possamos, meu filhinho Miguel, ver muito serenamente todas as coisas, todos os seres e que assim olhando com olhos saos de ver, com toda atenção que tudo merece e demanda, pois tudo é novo a cada instante, assim sendo, que nosso olhar esteja sempre límpido e fresco, principalmente, esteja livre e lépido, sempre inocente, de modo que possamos perceber todo o mundo com tudo que há nele, pela primeira vez.
Permita apenas meu querido amigo, que nesta caminhada, eu possa vez em quando lhe apontar certas coisas, com todo cuidado, com todo zelo, é só o que lhe peço, humildemente. Esteja sempre aberto, sempre se abrindo, sempre a florescer e, assim florescendo, com toda a vulnerabilidade do que é inocente, sem se preocupar com o que foi ou com o que vai acontecer, simplesmente deixe que seu perfume envolva o mundo, sem nunca levar em conta "quem ou o que".
Cante, aos quatro ventos, em todas as direções, a canção da vida que vibra e jorra da fonte pura e silenciosa em seu coraçaozinho. Cante, pois, porque este mundo de pessoas cada vez mais insensíveis, cada vez mais surdas, mesmo que o neguem com todo orgulho e ignorância, precisa deste perfume, desta canção de vida e amor.
Sendo assim, meu querido amigo, meu amado filho, simplesmente exale, cante, semeie, sem se preocupar com o que vao dizer ou fazer, pois que, assim desatentos, brutos e sem cuidado, nem perceberão que vosso perfume lhes impregnou, que vossa canção os elevou e que seus pés estão repletos das sementes que você semeou:
De modo que - por onde forem levar a guerra e a desgraça, levarão também as futuras flores, onde forem levar a fome levarão também o futuro alimento. Talvez, eles nao perceberão, contudo, outros neles talvez percebam aquele perfume e sintam o fluir irreprimível da canção e lhes sorriam.
O mundo, meu filho, precisa de você e de seus amiguinhos mais do que você e seus amiguinhos podem, agora, conceber; E lhes dirão, deixe isso conosco, esta missão é muito perigosa, esta tarefa é muito árdua, este trabalho é muito pesado para vocês, crianças.
Amado, nao permita que lhe encham de medo com a covardia deles, pois do nosso medo é produzida a autoridade que a nós próprios subjugará e, se isso acontecer, nao tens ninguém nem nada a culpar - Pois, fostes tu que oferecestes o coração, a cabeça, os braços e as pernas ao grilhão da servidão.
Meu caro bb potável, se negares positivamente tudo o que nao é amor, encontrarás por si mesmo, naturalmente, o que é amor; Com este amor, peixinho branco, nada será impossível e tudo será leve como sua maozinha, com a qual, cândida, estampará o mundo com o selo da inocência e da verdade.
Seja assim, meu filho, forte e delicado feito ninho, com os braços sempre abertos para oferecer abrigo. Seja assim, meu filho, uma luz para si mesmo. Que seu presente seja o presente-vivo da vida.
Com toda alegria lhe saúdo, amado Miguel Angelo, seu amigo e seu pai, Alexandre Magno Jardim Pimenta.
Obs: Para nao dizerem que lhe falei de apenas coisas "sonhadoras" como se dissessem "irreais" que em verdade nem de longe o sao, vou lhe falar agora de ciência, ciência essa (nem sabes) que aprendi com você.
A ciencia da poesia
É aquela de soltar pipa
Com uma linha infinita.
hoje, segunda-feira, 23/12/2013, você faz anos, completa dez anos de vida neste nosso mundo.
Você, meu filho, com sua luz, alegra meus olhos e seu sorriso a cada vez que se abre espalha o colorido do dia com todos os seus sons. E, eu lhe saúdo, como agradeço esta manha que é única como tudo o que vive e respira.
Meu filho, nao quero lhe dizer o que deves ou nao fazer, muito menos lhe dizer o que você deveria ser; Espero, apenas, que caminhemos juntos e assim compartilhemos a maravilha indescritível de viver - Que possamos, meu filhinho Miguel, ver muito serenamente todas as coisas, todos os seres e que assim olhando com olhos saos de ver, com toda atenção que tudo merece e demanda, pois tudo é novo a cada instante, assim sendo, que nosso olhar esteja sempre límpido e fresco, principalmente, esteja livre e lépido, sempre inocente, de modo que possamos perceber todo o mundo com tudo que há nele, pela primeira vez.
Permita apenas meu querido amigo, que nesta caminhada, eu possa vez em quando lhe apontar certas coisas, com todo cuidado, com todo zelo, é só o que lhe peço, humildemente. Esteja sempre aberto, sempre se abrindo, sempre a florescer e, assim florescendo, com toda a vulnerabilidade do que é inocente, sem se preocupar com o que foi ou com o que vai acontecer, simplesmente deixe que seu perfume envolva o mundo, sem nunca levar em conta "quem ou o que".
Cante, aos quatro ventos, em todas as direções, a canção da vida que vibra e jorra da fonte pura e silenciosa em seu coraçaozinho. Cante, pois, porque este mundo de pessoas cada vez mais insensíveis, cada vez mais surdas, mesmo que o neguem com todo orgulho e ignorância, precisa deste perfume, desta canção de vida e amor.
Sendo assim, meu querido amigo, meu amado filho, simplesmente exale, cante, semeie, sem se preocupar com o que vao dizer ou fazer, pois que, assim desatentos, brutos e sem cuidado, nem perceberão que vosso perfume lhes impregnou, que vossa canção os elevou e que seus pés estão repletos das sementes que você semeou:
De modo que - por onde forem levar a guerra e a desgraça, levarão também as futuras flores, onde forem levar a fome levarão também o futuro alimento. Talvez, eles nao perceberão, contudo, outros neles talvez percebam aquele perfume e sintam o fluir irreprimível da canção e lhes sorriam.
O mundo, meu filho, precisa de você e de seus amiguinhos mais do que você e seus amiguinhos podem, agora, conceber; E lhes dirão, deixe isso conosco, esta missão é muito perigosa, esta tarefa é muito árdua, este trabalho é muito pesado para vocês, crianças.
Amado, nao permita que lhe encham de medo com a covardia deles, pois do nosso medo é produzida a autoridade que a nós próprios subjugará e, se isso acontecer, nao tens ninguém nem nada a culpar - Pois, fostes tu que oferecestes o coração, a cabeça, os braços e as pernas ao grilhão da servidão.
Meu caro bb potável, se negares positivamente tudo o que nao é amor, encontrarás por si mesmo, naturalmente, o que é amor; Com este amor, peixinho branco, nada será impossível e tudo será leve como sua maozinha, com a qual, cândida, estampará o mundo com o selo da inocência e da verdade.
Seja assim, meu filho, forte e delicado feito ninho, com os braços sempre abertos para oferecer abrigo. Seja assim, meu filho, uma luz para si mesmo. Que seu presente seja o presente-vivo da vida.
Com toda alegria lhe saúdo, amado Miguel Angelo, seu amigo e seu pai, Alexandre Magno Jardim Pimenta.
Obs: Para nao dizerem que lhe falei de apenas coisas "sonhadoras" como se dissessem "irreais" que em verdade nem de longe o sao, vou lhe falar agora de ciência, ciência essa (nem sabes) que aprendi com você.
A ciencia da poesia
É aquela de soltar pipa
Com uma linha infinita.
sábado, 21 de dezembro de 2013
Despertar
Ela acordou ainda fazia noite
E sua solidão era a mesma da estrela
E seus átomos eram os mesmos de todas as estrelas
E sua febre era a febre do universo.
Ela abriu a janela
E o vento enquanto ventava
E pelo quarto adentrava
Deslizando por ela, ganhava a forma de seu corpo.
Quando o sol estabelecido
De azul o céu iluminou
Seu coração comovido
Enfim transbordou.
Transbordou como transborda o rio
Como transborda um copo de água
Como transbordam os olhos
Transbordou como uma flor exala seu perfume.
Entao, ela pegou dois bancos na cozinha,
Abriu o portão e foi de encontro ao deserto da rua
Repleta de gente que dizem ter uma alma
E ela colocou os bancos na calçada, um do lado do outro.
Sentada num deles, vulnerável feito florflorescendo,
Pacientemente, inocentemente exalava -
E nem se importava com o que fosse acontecer:
"Senhorita, que faz aí?" Simplesmente a viver.
E sua solidão era a mesma da estrela
E seus átomos eram os mesmos de todas as estrelas
E sua febre era a febre do universo.
Ela abriu a janela
E o vento enquanto ventava
E pelo quarto adentrava
Deslizando por ela, ganhava a forma de seu corpo.
Quando o sol estabelecido
De azul o céu iluminou
Seu coração comovido
Enfim transbordou.
Transbordou como transborda o rio
Como transborda um copo de água
Como transbordam os olhos
Transbordou como uma flor exala seu perfume.
Entao, ela pegou dois bancos na cozinha,
Abriu o portão e foi de encontro ao deserto da rua
Repleta de gente que dizem ter uma alma
E ela colocou os bancos na calçada, um do lado do outro.
Sentada num deles, vulnerável feito florflorescendo,
Pacientemente, inocentemente exalava -
E nem se importava com o que fosse acontecer:
"Senhorita, que faz aí?" Simplesmente a viver.
Flor Peregrina
Oh flor peregrina
Assim pequenina
Infunde todo o mundo
Com vosso perfume
Desde o vale até o cume.
Oh chama infinita
Serenamente medita
Entre o viver e o morrer
E assim ativa, assim ardente,
Incendeia todo o presente.
Oh flor peregrina
Insondável é ao que se destina,
Indevassavel, assim o oceano e o amor,
Chama intocada e perfeitamente silente
Neste mundo de caos és toda inocente.
Nem os sábios nem os santos nem os poetas
Nem aos poderosos nem aos profetas
Nao és de nada nem de ninguém
Nem daqui nem do além
Nem de antes nem de depois.
Nenhuma coisa e nenhum nada te limita
De amor és toda infinita - Que sois?
Assim tao leve, sem espinho,
Forte e delicada como um ninho
Livre de todo caminho ou descaminho.
Assim, repleta de ternura,
De com-paixao e de cura
Sempre-viva-sempre-amante-semp re-morta
Mesmo ao redor de tanta crueldade e violência
Permanece sempre sagrada em sua inocência.
Flor peregrina, flor transmigratória,
Como dizer-lhes de sua criação
De sua magnífica e humilde realização
De sua descentrada glória?
Oh sempre-florescente-flor
Chama silente que medita
Chama livre de medida
Entre vida e morte - és amor.
VIDAMORTE.
Assim pequenina
Infunde todo o mundo
Com vosso perfume
Desde o vale até o cume.
Oh chama infinita
Serenamente medita
Entre o viver e o morrer
E assim ativa, assim ardente,
Incendeia todo o presente.
Oh flor peregrina
Insondável é ao que se destina,
Indevassavel, assim o oceano e o amor,
Chama intocada e perfeitamente silente
Neste mundo de caos és toda inocente.
Nem os sábios nem os santos nem os poetas
Nem aos poderosos nem aos profetas
Nao és de nada nem de ninguém
Nem daqui nem do além
Nem de antes nem de depois.
Nenhuma coisa e nenhum nada te limita
De amor és toda infinita - Que sois?
Assim tao leve, sem espinho,
Forte e delicada como um ninho
Livre de todo caminho ou descaminho.
Assim, repleta de ternura,
De com-paixao e de cura
Sempre-viva-sempre-amante-semp
Mesmo ao redor de tanta crueldade e violência
Permanece sempre sagrada em sua inocência.
Flor peregrina, flor transmigratória,
Como dizer-lhes de sua criação
De sua magnífica e humilde realização
De sua descentrada glória?
Oh sempre-florescente-flor
Chama silente que medita
Chama livre de medida
Entre vida e morte - és amor.
VIDAMORTE.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Viagem
Vou sair de viagem: não sei nem quero saber
De quantos passos e caminhos isso consistirá.
Pode ser que um baste e seja demais
Ou nem cruzando todos eles.
Por nada nem por ninguém, muitos menos para mim.
Por tudo e por todos, principalmente para mim.
Quando a viagem estiver terminada
E pode terminar no mesmo instante em que se iniciar
Hávera verdade, beleza, amor, paixão e liberdade.
Então, de fato, compreenderei - que o rio desde sempre
E nunca dantes tocara e adentrara o oceano.
Vou como o rio, vou, como dizem, feito a escrita de Deus.
De quantos passos e caminhos isso consistirá.
Pode ser que um baste e seja demais
Ou nem cruzando todos eles.
Por nada nem por ninguém, muitos menos para mim.
Por tudo e por todos, principalmente para mim.
Quando a viagem estiver terminada
E pode terminar no mesmo instante em que se iniciar
Hávera verdade, beleza, amor, paixão e liberdade.
Então, de fato, compreenderei - que o rio desde sempre
E nunca dantes tocara e adentrara o oceano.
Vou como o rio, vou, como dizem, feito a escrita de Deus.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Coisa de criança
"De moleque sempre tive curiosidade em
compreender o que era em mim que fazia com que os pássaros revoassem e não
permitissem acariciá-los ou o que era aquilo, neles mesmos, achei o mundo por
demais misterioso de fundos falsos. Que era isso que se designavam
"homem", assim é que me designaram, mas sempre fui cá dentro
inquieto...".
Vai já não sei quanto tempo que
escrevi este trecho num conto; hoje, sentado nesta cadeira, junto desta mesa,
dentro desta casa aos pés desta serra, alturas que muito caminhei, ao som da
chuva dedilhando o telhado e as janelas, vi um pequeno pássaro, de asas negras
como a noite e amarelo-vivo no peito e na cabeça como a luz solar do findar da
tarde amena, ele pousou numa delas querendo entrar, mas, fechada, o vidro o
impediu.
O pequenino saltou de uma em uma
procurando em vão um vão. De repente, a meninice saltou do baú antigo e veio
brincar nos meus olhos, no peito uma profunda afeição, nas mãos a quentura
fresca do frêmito de um voo. Paro e digo “não
sei” o que é isto.
Neste fim de tarde, silêncio de
chuva, não apenas me pergunto o que é isto, mas também o que é que me levava a
querer pegar os pássaros, acaricia-los e tudo o mais que uma criança pode
querer com e de um pássaro. “não sei”.
Todo este movimento em ação, o
movimento da própria vida que é sempre renovação, que é sempre criação, rio da
vida que abarca a tudo e repleto de tudo nunca deixa de ser o que é e o que é é
sempre novo, não uma mera novidade comparada com o velho, não uma continuação
do velho, mas sempre novo, único. Todo este fluir:
E, sim, o velho sábio já dizia que
disso com o que mais con-vivemos é do
que mais di-vergimos. Ai! E nosso
coração tão vazio, tão seco, desesperado. Como pode isso?
Digo “nosso” coração e não digo
bem, porque afinal, é o coração humano, não meu seu deles nossos, porque
afinal, é o sofrimento de cada um e de todos nós, não há o seu mundo e o meu
mundo, tudo isso é sonho, ilusão, medição. Minha alma, sua alma, minha consciência,
sua consciência.
Penso que no fundo, está este amor
sem tamanho e sem valor, esta grande afeição, esta incansável delicadeza e
ternura para com tudo, esta grande paixão da vida, mas também havia e há ainda
todo este isolamento e neste isolamento o medo, o sofrimento, esta sede
aparentemente sem-fim de preenchimento.
Sinto que o caso dos pássaros pode
ser transferido para tudo.
Não basta que eu me aproxime com
respeito e lhe aproxime a mão, não basta que eu diga para mim mesmo, sou uma
pessoa boa, não sou violento, muito menos para o pássaro, não quero lhe
machucar. Posso repetir por muitas e muitas vezes isso, assim como fiz quando
criança. Nada disso é capaz de destruir o que nos separa. Sim, podeis claro,
dia após dia, deixar-lhes alimento num determinado local e ir ter com eles,
porém, de fato, será que nossa relação com eles teria mudado? E, enquanto
houver isso que nos separa e nos faz divergir, não pode haver beleza, não pode
haver comunicação, isto é, comunhão.
Não se trata de alterar as minhas relações com
os pássaros. Mas sim, de revolucionar meu próprio viver como um todo, assim,
naturalmente, todas as minhas relações, com todas as coisas, mudarão de fato.
Da Liberdade
O homem livre,
Da nossa tímida perspectiva,
Parece que é completamente
sinuoso, feito rio, mas da imensa perspectiva
do oceano - nunca houve desvio.
Da nossa tímida perspectiva,
Parece que é completamente
sinuoso, feito rio, mas da imensa perspectiva
do oceano - nunca houve desvio.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Arte
Fazemos arte
para suportar
Muitos disseram.
Porque não compreendemos
Aquela outra coisa - que é viver.
para suportar
Muitos disseram.
Porque não compreendemos
Aquela outra coisa - que é viver.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Primeira parte de um diálogo imaginário com Sócrates.
I
***
Imaginei
ao sair agora para a rua, vindo caminhando do outro lado, sozinho na noite, sob
a chuva, como vou, o velho Sócrates, que chegando até perto, dissesse:
Meu caro amigo, diga-me, você
está preparado para dar a razão do seu atual modo de viver? Está preparado para
responder adequadamente aos desafios que são lançados diante de ti? Diga-me,
rapaz, no que está baseada toda a sua vida?
E,
simplesmente não ficasse com medo, simplesmente parasse de debater-me no vazio
como um peixe fora de seu elemento natural, como um louco, por um instante que
fosse e nesse presente instante sentisse demasiado fundo e pensasse claro, a
absurda inutilidade de todo este terrível esforço e percebesse que nunca houve
realmente uma vítima e um carrasco, que a vítima era o carrasco e o carrasco
era a vítima. Quieto ali, sem alegria ou tristeza, sem prazer ou dor, sem
nenhum movimento nascente que me direcionasse para uma possível fuga, suspensos
os julgamentos, apenas vendo a ignorância, o medo e o sofrimento.
Amigo, acorda! Tens algo a
dizer?
Sim.
Não estou preparado e toda a minha vida, vejo, baseia-se na ânsia de ir de
abrigo em abrigo na busca incessante de um lugar seguro, de algo permanente, de
conforto e salvação. Mas, cria eu, estar buscando a verdade e a felicidade.
Nunca vamos à verdade, ela que
vem até nós e a felicidade não é algo que se conquiste, é preciso compreensão.
Da virtude da compreensão carecemos. Ouvi, depois do que você disse, sinto-me
tranquilo em expressar com toda a coragem e liberdade, diante o amigo e, com
ele comungar, meus pensamentos e tudo o que se passa em meu coração. É assim
mesmo?
Sim.
O que você ama quem você ama o
que é que você realmente faz com amor?
Ora,
se eu fizesse-me essa pergunta antes de vir até à rua caminhar, saberia o que
responder-te, porém, digo sem vergonha, estou inseguro, não sei o que falar.
Porque haveria de se ter vergonha ao declarar sua insegurança, será porque todos se gabam do quão seguros são? Em verdade, os que se dizem "seguros", nunca poderão compreender nada. Não preocupemo-nos em falar,
nem em dizer tudo o que nos vem à cabeça, cuidemos, sim, de pensar no que
formos dizer, porque uma opinião falsa pode deixar-nos doentes, feridos, descompassados,
esquecidos, se não estivermos apercebidos e assim apercebidos pudermos desfazer
seu bruxedo. Ficamos suscetíveis a estas influências
quando estamos cegos de medo e, consequentemente, na busca de completude e
segurança. O que principalmente é produzido quando assim agimos, é o que se
chama de autoridade. E, vê, tu que criastes isso, esse mal, fruto de vosso medo.
Não tens a quem culpar, tu que oferecestes a cabeça, o coração, os braços e os
pés. Isso porque desejas consolo e ardentemente sua salvação individual.
De
fato, assim é, meu caro senhor. E que estranha troca, insensata troca, a
salvação pela liberdade, quando a liberdade haveria de ser a única salvação.
Dizei-me, como é que podeis
conhecer a ti mesmo, se não há amor?
Só
onde há amor, há real compreensão?
Sim. Ainda não reparastes que,
quando estais a fazer algo que realmente amas fazer, algo que não não podes
deixar de fazer, quando nada ao derredor pode distrair-lhe, quando nada dentro
de ti pode influenciar-te, não reparastes que quando isso acontece, estás todo
ali, por inteiro, está ali o que é, o que és – e assim o amor simplesmente
floresce, todo o sofrimento arrefece, então é que vem a compreensão, isso, sem
que nem mesmo precisasses invocar “por quê”? Se não há amor no coração, não
podes compreender as coisas, os outros, nem a ti mesmo.
Assim
é quando retemos apenas o essencial.
Exato, quando negas
positivamente todo o apego. Só então há realmente dedicação, apercebimento,
aprendizado, criação. No mais das vezes ao buscar desapegar-nos das coisas e
das pessoas, agimos visando desvencilharmo-nos das ilusões, agir assim só causa
dor e enfim frustração. Quase sempre ao buscarmos nos refugiar do mundo é
quando realmente nos entranhamos nele, nos perdemos entre tantas coisas, sem
espaço e nos prendemos em tantos laços falsos.
Estou
terrificado, senhor, pode muito bem ser que eu nunca tenha amado nada nem
ninguém.
Só tu podes descobrir.
Será
terrível.
Sim, porque tens horror à
vacuidade da qual tu foges sem cessar, o vazio que não queres perceber, o vazio
do que chamamos de “existir”, no qual estás a se debater, claro, sem êxito,
todo esforço é vão, apenas dispêndio de energia.
Mas,
como enfrentar toda essa aversão?
Sem “como” nem “por que”, não invoques,
não provoques, não postergue. Não é assim o amor? Como a rosa, sem motivo? Não
crie mais conflito, pois de conflitos não careces mais, disso estás farto. Não
crie oposição.
Dizes
então que devo apenas observar esta compulsão?
Sim, é isso mesmo.
E
quando isso acontecer, esta serena apreensão, saberei o que fazer?
É o que achas?
Sim.
Assim é. Não haverá escolha,
simplesmente agirás, não reagirás, não mais se debaterás ignobilmente.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Uma flor
Imaginem
Não não imaginem
Sei lá como diga
Uma flor que assim
Como quem não quer nada
Sem esforço ou fadiga
Sem qualquer motivo
Infunde todo o mundo
Com seu perfume.
Não não imaginem
Sei lá como diga
Uma flor que assim
Como quem não quer nada
Sem esforço ou fadiga
Sem qualquer motivo
Infunde todo o mundo
Com seu perfume.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Da vida e do mundo.
A vida não tem nada a ensinar
Como qualquer verdadeiro criador
O mundo não é uma escola
Ninguém lhe ensinará amar
Nada pode livrar-te do temor
A sabedoria não dá esmola.
Como qualquer verdadeiro criador
O mundo não é uma escola
Ninguém lhe ensinará amar
Nada pode livrar-te do temor
A sabedoria não dá esmola.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Da confusão nos cemitérios.
Um cemitério é sempre
Algo extremamente desordenado
Assim como um simples túmulo
É extramente desordenado.
Mesmo sendo o sarcófago de uma múmia
Mesmo sendo a múmia do mais poderoso faraó.
Assim é nossa vida, não a vida, seja lá o que for isso,
Mas essa é a vida que levamos, enterrados.
Não é possível que a morte esteja no cemitério
Nem no interior dos túmulos, nem em nossa vida;
E precisamente por isso não podemos viver realmente.
Algo extremamente desordenado
Assim como um simples túmulo
É extramente desordenado.
Mesmo sendo o sarcófago de uma múmia
Mesmo sendo a múmia do mais poderoso faraó.
Assim é nossa vida, não a vida, seja lá o que for isso,
Mas essa é a vida que levamos, enterrados.
Não é possível que a morte esteja no cemitério
Nem no interior dos túmulos, nem em nossa vida;
E precisamente por isso não podemos viver realmente.
Da busca
No exato momento
Em que saímos para buscar
Fechamos uma porta
E assim o sol não pode entrar.
Em que saímos para buscar
Fechamos uma porta
E assim o sol não pode entrar.
Haikai
Olho porentre as gotas da chuva obliqua
Que cai ao declinar da tarde - pasto -
Um homem ou um cavalo?
Que cai ao declinar da tarde - pasto -
Um homem ou um cavalo?
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