sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

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Guardei todas as facas e os espelhos
No algodão o perfume de seus seios
No coração sangrento todas as dores
Do crime brutal contras estas flores.

No jardim chora a estátua do abandono
Que meus olhos sem vida nem sono
Contemplam tristemente a pétrea imobilidade
Enquanto o luar desce seu manto de soledade.

Meu sangue perdeu sua eloquência
E minhas mãos a inocência
De escrever o que sua ardência
Falava em mim das profundezas.

Estou só e a estrela me sabe
Estou só e a vida não cabe
Morrerei de todas as delicadezas
No pó onde tudo se acabe.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

***

Amar é estar vulnerável
E esta é a grande fraqueza
Que nos torna forte e delicados
Feito ninhos e também a maior sinceridade.

Diante o amor descobrimos o que e quem
Está por trás das ações, pois, é o amor,
Que o fez único e livre.

O que se faz diante à flor, diante à criança.

***

De que vale o mundo, meu bem,
com suas portas, se todas elas me levem
para onde você não está e onde não quero estar?
De que servem todos os lugares,
se por eles tudo é fadiga e pesares?

O mundo com suas janelas
se não há você em nenhuma delas
se de nenhuma eu posso repousar o olhar em ti
como sobre uma ilha e tudo o que resta
é o vago horizonte sem espessura?

Você é a água aflita que eu sugo na terra.

De que valem, meu bem,
todas as portas e janelas deste mundo
se você, flore entre flores, era o perfume íntimo
que dele emanava? E o vento não é cruel nem frio,
é sim um cachorro vadio. Quê importam?
Se tudo que por elas agora transita (sem cor nem cheiro)
é insensível à tintura poética, à minha solidão?

Quê importa a liberdade?
Se sem você não tenho braços nem pernas
que foram dilacerados nesta tarde de chuva com sol
quando te disse adeus e desistimos do amor
como se largássemos  brinquedos
como as crianças que sem saber os deixam, pela última vez,
sem saber que quando voltarem a vê-los
já estarão crescidas e não saberão mais como pegá-los
e a pureza se mostrará, tal qual é, um mito.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O rei e o mendigo

(para o poeta conhecedor da linguagem dos pássaros, Attar)

I

Um homem se perdeu
De amor por seu rei
E de amar quase morreu
Na noite do tormento mais atroz:

Por ele, ó majestade, chorei,
Até que lágrima se fizesse sangue
De companhia, no deserto, apenas minha voz,
Na mais dolorosa solidão.

Mas ainda meu peito plange
Resta um acorde em meu coração
Sou apenas um mendigo
Que poderia um rei querer comigo?

Contudo, antes que eu morra,
Antes que ele se dissolva no ar
É preciso que o rei se disponha a escutar
Vamos, vá cavalo, corra!

Talvez aos seus ouvidos
Se revele o sentido
Do acorde comovido
E estes meus segredos.

II

Ai, homem inebriado,
Me espanta e me encanta
Vossa coragem, pobre coitado,
E sua voragem, esta secura em sua garganta.

Porém, eis onde seu amor
Te trouxe pelo deserto da dor
Ou morrerás para estas terras
Ou morrerás de uma vez para tudo.

Podes optar, enfim... (por que medras?)
Pelo exílio ou seu próprio fim
E assim deixar este mundo
Eis a minha resolução.

III

Amado, se esta é minha situação,
Escolho o triste exílio e seu amargor
E lá, seguirei te adorando, seja onde for,
Esta é minha opção.

IV

Cortem já a cabeça
Deste homem perdido
Antes que escureça
Quero vê-lo partido!

Não és vero amante
Para isso se ver
Não carece nenhum clarividente
Está patente, não sabes morrer.

Como então podes amar
Aliás, como podes assim viver?

Falso amante, toda sua dor foi vã,
Assim como vazio é seu penar
Se perdeste em sonhar
E todo seu sonho é mero afã.

Tu se vanglorias, ó presunçoso,
Contudo, em seu coração,
Ao invés de amor, amor precioso,
Há apenas inglória pretensão.

Preferiste tua cabeça, mentiroso,
Que importa, agora, suas horas de aflição,
Se quando diante de seu rei amoroso
Tomaste tal decisão?

Fica sabendo, estranho mendigo,
Que se tu trilhasse a via do amor
Eu seguiria caminhando contigo
Compartilhando as asperezas e o esplendor.

Apenas com loucura e delicadeza
Sem força nem espada
Em sua nua pobreza
Terias toda essa terra destronada.

Contudo, não és homem de ação,
Tal homem não delibera nem escolhe
Então, agora que plantaste colhe,
Sempre a velha e nunca aprendida lição.

Não te esqueça, meu caro,
Que se fosse amor verdadeiro
O que há de mais difícil e raro
Ofereceria eu minha cabeça e poderio.

Terias um fiel e íntimo amigo
E o rei serviria ao mendigo.

Que ninguém se vanglorie
Nem se arrisque sem forte resolução
Sem que seu peito irradie
E aberto esteja seu coração.

Que ninguém venha me seduzir
Quando nada sabe de si
Nem possa se conduzir
Na via sem medida do amor.

É o que digo para ti, inútil sofredor.
Afinal, que sou eu para ser digno da graça de amar?

Como tu cheguei a este mundo animalizado
Com fome e desabrigado
E assim o deixarei
Não obstante se fui rei.

Nada obsta meu frágil poder
Mesmo que vasto
De tudo isso me afasto
Quando morrer.

Bem possível que nem a história nos acolha
Quando sobrevier a inevitável mortalha
Se de mim se lembrarem será por batalha infame
E fátuo, vão, será o meu nome.

Se fosses vero amante, fiel amigo,
Talvez, por extraordinário enlace,
Muito mais tarde diriam do rei e do mendigo
Em um poema que nos engrace.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tua vida
Cabe tao bem
Em minha ferida.

Ambiçao

 (imagem: Alfred Kubin)

Os chamados homens de ação
aqueles com as melhores intenções
os adoradores do progresso
os guias e os instrutores
os que cobrem de pó e dores
o corpo e o martirizam
aqueles que fecharam a boca
e pregaram a língua
aqueles que se embrenharam
no isolamento
os heróis de prontidão

Nus ou cobertos de todas
as pompas e púrpuras
qual seres extraordinários
livres de todas as necessidades

Só fazem por intensificar
a nódoa da ambição

Sob teto de ouro ou a tenda de estrelas
no deserto ou na cidade

Ó insensato
assim como chegaste
e entraste no mundo
assim o deixará
com fome e desabrigado.

Triste de quem os viu à todos
neste misterioso teatro
e os condenou
mais triste quem os viu
e em seu coração a chama
da esperança se acendeu nas cinzas.

Ai, desgraçado, arrastando
esse fétido e monstruoso
monturo.

Têm a resposta, senhores?
Então, por que não vêem
e me libertam desta loucura?!

Estão escondidos por trás
destas barbas
mas sinto que os piolhos
e as pulgas da vergonha
e da mentira os devora.

Deixem-me cá com a minha loucura!

Não seria melhor a mais atroz loucura
o mais louco amor
que tomar lugar
no horrendo e lento desfile
do cadáver deste hediondo animal
da carcaça do mundo?