quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Flores

O que é belo nas flores
É o que o tempo faz com elas
Enquanto elas vivem
No mais, de que lhe adiantaria
As flores artificiais?
Já que estas também fenecem.

Licença-poética.

A única relação que tenho
Com esta vida e com este mundo
É um ligação poética - poesia é  o que contenho:

Estou por aqui apenas de licença.

Das licenças

As mulheres tiram licença-maternidade
Os homens (?) licença-paternidade
Uns tem licença-provisória
Eu estou de licença-poética neste mundo
E ela é irrevogável.

A licença-poética é a mãe de todas as licenças.   

Caligrafia

É uma intuição estranha
Mas de uma força tamanha
Ao escrever poesia
Sentir o frêmito da vida
Passar pela minha mão inocente
(É quando me sinto mais ou menos gente)
Como o voo de um pássaro ferido
Ou as pegadinhas de uma formiga
Se transformar na minha caligrafia
Assignatura do meu ser-letral
Tão íntima da essência da minha poesia
Onde se entrevê meu nome original

Sei que minha caligrafia é meu verdadeiro cordão-umbilical.

Da publicação

Triste é pensar na minha caligrafia
Porque é tão bela minha escritura
Quando e se for publicada minha poesia
Com a letra morta, branco-no-preto, toda dura.


Do poeta

Que tristeza mais profunda
Do que aquela oriunda
Da seca constatação
Que acomete o coração
Do humilde poeta e sua pobre poesia?

Já não é possível aquela pura alegria
Ao ver o sol de sua vida que declina
Ao ver que o amor já dobrou a esquina
Diante o horizonte inalcançável e sem nuvem
Que já não é possível morrer jovem
Ardendo em suas próprias chamas
Morte que daria a seus poemas
De tão tenra e viçosa idade
Uma mais bela ilusão de eternidade.  .

Para os que ainda podem morrer jovens II

Os que ainda podem morrer jovens
Raramente despertam a tempo
De arriscar o poema derradeiro
O puro amor verdadeiro
Que viria a ser realmente o primeiro.

No meio do caminho

E se,
naquele exato instante
passasse no caminho um moleque
e como todo moleque chutando as coisas
o poeta teria as vistas menos cansadas
e na memória um acontecimento mais alegre.
Mas, fazer o que?

"Os caminhos nunca podem fazer o que querem".

De diário

Desde a primeira vez
Que li o poema da pedra
No meio caminho
Era irresistível a vontade
De meter o pé nela
Assim de pura brincadeira
Diante aquelas retinas tão fatigadas do poeta.

Não é bom que aconteça aos homens tudo o que querem.

Imaginem só - se todos nós tivéssemos o poder
de, por exemplo, matar pela força do pensamento
quem quer que seja. Resultado - não sobraria
ninguém sob a face da terra, exceto, talvez, alguns esquecidos.

Azul indiferente

Minha tristeza
Nunca fez do azul do céu
Cinza - Ainda bem que o céu
É assim azul e indiferente.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Aos que ainda podem morrer jovens

Peço a todos e a cada um
Daqueles que ainda podem
Morrer jovens

Com os lírios e as rosas pela rua da vida:

Caso alguém for se matar
Que se mate num dia assim
Que morra de puro amar

Sob este céu de safira se fira
Sob essa chuva sem fim

Num dia assim como hoje
Quando não há nem perto nem longe
Que cheira à álcool e anis

Solitário e belo como um barco
Ancorado no espaço 
Se enforque no primeiro arco-íris.

(Escandalosamente feliz)



Suprema Felicidade

(para o Mestre feiticeiro - Mário Quintana)

***

Ele tinha perdido tudo
E sentiu a leveza
Da suprema felicidade
De quem num dia azul cristalino
Escolhesse saltar de um dos prédios da cidade.

Estação-Fim-De-Mundo

Seus calçados tristemente sorriam
Para o mágico que produzia a ilusão
De ter para si uma platéia ali na estação
Onde esperavam o trem que muito longe
longelongelongelongelongelongelongelongelongelongelo
Vinha (ou já teria passado?!) fazendo uma curva infinita
De nenhum lugar para lugar nenhum. Eles não sabiam
(desavisados) que o mundo havia se acabado
naquela manhã e todas as passagens estavam compradas.

Para o Natal de 2013

Temos buscado incansavelmente nossa vitória e nosso pão de cada dia.
Temos perdido noites desesperadamente buscando nossa pequena alegria.
Temos procurado o que somos em todos os lugares e em todos os lugares
só o que encontramos é a angústia de estar ou não estar.


Temos construído nossas próprias armadilhas. Nossas próprias prisões.
Rido do que intimamente choramos e chorado do que intimamente nós rimos.

Temos bebido e comido a água e o alimento.
Temos principalmente jogado fora o que falta a quem não tem nada.

Temos nos sentido, realmente privilegiados, por nossa ignorância.
Por nossa insensibilidade, por nossa estupidez, por nosso entorpecimento.
Por nossa sábia indiferença diante o sofrimento de tantos seres.


Por nossos falsos paraísos, por nossas crianças senis, por nossos adultos infantilizados,

por nossos velhos calados, por nossas mortes controladas.

Temos temido todas as coisas, acima de tudo temos temido amar e ser amados,

pois isso nos levaria à certeza de que tudo só depende de nós.

Assim como uma só andorinha não tece o verão, nossa dor e nosso amor sozinhos

não fazem nenhum Natal. Por isso, é preciso que estendamos nosso dor à dor vizinha,
nosso amor além de nossos jardins. É preciso erguer uma ponte, abrir uma fonte,
do homem ao homem, de horizonte à horizonte, de porta em porta, de rota à rota,
de guirlanda em guirlanda, de ciranda em ciranda, de pólo à polo, de olhar em olhar,
de mar à mar, de solo à solo - E amar.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Dia

Tem dia que chove o ano inteiro

Encontro ao meio-dia

Eis que te entrevejo.
Faz meio-dia.
Sol de olhar pleno.

Ai! meu ardente desejo
minha delicada alegria
senhora do meu reino.

Todas as sombras
se escondem sob todas
as coisas, sob nossos pés -

E rosa, silente rosa, em que és
permaneces misteriosa:

Em sua origem
em seu fogo

em seu rogo
em sua vertigem

de meia-noite.

sábado, 16 de novembro de 2013

Lembrando Miguel Unamuno e Rimbaud.

Dor mesquinha
Esta dor minha
Doendo cá sozinha
Remoendo caladinha

A dor de viver
Que faz esquecer
Da dor de cada alminha
Que se faz e fez nascer

Por isso estou a escrever
esta quadrinha
Para ver se estender
tu à dor vizinha

Uma só andorinha
Não faz verão
Dor dor minha
Fazes toda a solidão

Dor de cada um
Dor de cada qual
Que tens de mal
Tens de vazia

Dor de cada um
Dor de cada qual
Que tens de igual
Tens de vazia

Dor de cada um
Dor de cada qual
Na Terra
Não faz nenhum
Natal

Na guerra
Não faz
Paz
Nem pão

Esta dor não dá farinha
Esta dor dá só ilusão
É triste e falsa companhia
A roer o coração 

Dor de cada qual
Dor de cada um
Dor vazia
Só a dor comum
Faz Carnaval
Faz alegria

O que vocês me respondem?

A dor comum
Santifica
A dor de cada um
Bestifica

O que vocês me respondem?

É preciso erguer uma ponte
Abrir uma fonte
Do homem ao homem
De horizonte à horizonte

De porta em porta
De rota à rota
De guirlanda em guirlanda
De ciranda em ciranda

De pólo à pólo
 De olhar em olhar
De mar à mar
De solo à solo

E amar






sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Inspiração

Inspirei fundo
fundo e forte
como quem
está à beira
da morte.

Inspirei fundo
fundo e a valer
como devem
respirar os bebês
ao nascer.

Vi as mulheres
nas janelas acesas
com seus quereres
penteando as sobrancelhas
se aprontando para a noite
sem saberem que a noite está vazia
sem saberem que elas estão dentro de mim
e que seja lá o que for a vida, é certo,
não é uma resposta.

"Borboleta na bosta, o mundo é pra quem gosta".

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ponte

E desde aquele primeiro olhar
Criou-se entre nós uma ponte
De lugar-nenhum para nenhum-lugar,
Esplêndida, de ouro e sonho, suspensa no ar.

Insondável, para mim, é a sua fonte,
Mas sinto que é de onde sangra a vida
E onde tem sua origem o rubro da rosa
Minha alma comovida e o frêmito da asa.

Desde então não tenho mais morada
E nesta ponte vivo indo e vindo
Por dias e noites a fora. Desde então,
sou teu por inteiro, livre coração, livre prisioneiro.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

domingo, 10 de novembro de 2013

Sol

Um beijo
pra ti morena.
Um beijo da cor
do sol que eu vi hoje
e que me dissolveria
com certeza
se eu não te desse
um beijo de sol-cereja.

A cruz e a mão do menino

Que cada qual carregue a sua cruz. Essa é a divisa que nos traspassa a todos já vão séculos, muito embora surgissem pessoas que de tempos em tempos buscaram nos estender as mãos com as portas do coração abertas para o mundo e nos colocar de pé, eretos. Dizem, que aquele nosso amigo, coração-amante do todo imanente, Jesus Cristo, foi lá e nos provou que era possível aquilo que criamos ser impossível e desde então homens sem compaixão fazem crer a toda a gente que assim que é, que precisamos seguir o exemplo. Dizem, que o verdadeiro amigo é aquele que nos ajuda como pode a carregar a cruz, nos apoiando para não cairmos e seguirmos em frente, arrastando, puxando. O Jesus Cristo que amo é aquela grande alma que me veio mostrar que o mais difícil não é carregar o peso, o mais difícil, em verdade, é depô-lo, o fardo, antes que ele se nos agarre feito corcunda. Muitas outras grandes almas disseram, ensinaram e exortaram-nos para que cuidássemos de nos livrar de todo o peso. Para muitos parecerá simplório e ridículo, mas para todos estes lanço um desafio, aposto que todos são capazes de erguer o peso e carregar sua própria cruz, ainda mais que outros muitos haverá para lhes estimular, lhes incentivar, porém, poucos, talvez também como eu, conseguirão o que lhes parece mais fácil e que encaramos como sendo uma desistência, simplesmente deixar cair o que leva nas costas, sobre os ombros. Também eu até aqui não amei o quanto poderia, também eu tive medo, também eu tive a cara deformada pelo ódio, também eu cri que era de algum modo maior que alguém, também eu comi, bebi e dormi, enquanto insones  eram e são corroídos pela fome e pela sede, também eu estive de olhos fechados por tempo demais, também eu esqueci de agradecer quando pude doar. Porém, sinceramente, poesia é questão de vida ou morte, de salvação ou perdição, não obstante se crerdes ou não, escrever um poema é salvar alguém, uma vida, nem que seja a nossa própria. Eu também fiz pouco e, talvez, quando eu morrer não deixe mais que uns poucos poemas, mas serão realmente o que fui e o que pude dar. Eu também fiz pouco, mas todo dia que chove aquela chuva antiguêra, é incrível, invade-me o ser uma esperança sem mescla de medo, uma fé, uma leveza, oro sem vergonha, escrevo sem mirar a quem, peço ao Deus, que se apiede, peço a cada um de vocês, no mais íntimo, mesmo que não sentis nem escuteis, que simplesmente, desistam, descansem, que deixem as coisas em paz, os guarda-chuvas, que deixem as pessoas em paz para viver e amar, que é tudo que o corações dos poetas e dos não poetas, ou melhor, daqueles que ainda não se experimentaram como poetas.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Pela manhã

Terrível é o cântico de certezas do ferreiro.
Para mim é a perdição, para outros consola.

O principal

Antes de tudo, como ensina Platão;
não difamar os cisnes, depois bendizer
as borboletas que vivem apenas um só dia.
Amar as crianças e aprender-lhes o olhar aberto
ao mundo; e com esta nova visão olhá-lo sempre
como se nunca dantes tivesse visto nenhum céu
nenhum mar, nenhumas árvores, montanhas, animais,
cidades, gentes, objetos e todas as coisas mínimas.
Amar os velhos e aprender-lhes a força e a delicadeza
a tranquilidade e a virtude da compreensão -
"já que nem todos se libertaram ainda", aprender
com eles também a olhar, tudo, como fosse
pela última vez. "O sol é sempre novo e o rio flui constante".
Os poetas dizem que o mar é infinito. Os sábios dizem que o mar é infinito.

Ambos dizem o mesmo e dizem a verdade, porém, um são sensatos,
os outros são doidos, uns querem em suas águas apenas flutuar
e os outros querem atravessá-lo e torná-lo, finito,
assim ensina o gordo e cristão feliz que escreveu a Ortodoxia.
Sim, como disse brilhantemente algum francês "a vertigem do infinito".
É preciso coragem, disse o Homem do Sertão, e coragem
é feita de certa indiferença para com a vida, pois paradoxalmente
às vezes é preciso lutar contra a vida para que a própria vida siga
em frente, não cultuar a morte, mas desejá-la como fosse vinho,
dessa mistura de lucidez e embriagues obra-se coragem, é preciso coragem,

pois, se a vida torna-se uma ordem e o mundo uma câmara de gás,
é preciso saltar da janela. Toda a arte da vida consiste em aprender a depor o fardo.
Cada amanhecer um voo, mesmo que breve, sempre extremo.

Homens e animais

Ao que parece a diferença entre a linguagem humana
por conceitos e daquelas dos animais
é que estas últimas estão isentas de contradições.

Isso, segundo o poeta que se comunicava com os animais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mulher

Como é possível discernir
sua nudez da escuridão
se tens o mesmo segredo
íntimo da noite, se és toda silente
e insondável como o mar
que não é mais profundo que sua pele.

Para o senhor bananeira

como é possível separar
o que é lágrima de peixe
do que é água do mar.

é preciso pescar o instante.

para o senhor bananeira
rato morcego poeta.


Visada

E, se eu atacava à direita ou à esquerda,
era somente para melhor seguir em frente
e como o rio ir ao mar.


Se caí foi apenas para tomar impulso
se transbordei foi para melhor ir por inteiro.
Para compreender a retidão do meu traçado sinuoso:

É preciso me ver da perspectiva do mar. 

Morcegos

Em revoadas explosivas
E assombrosas
Os morcegos
Partem da caverna
E invadem a noite.
Talvez fujam de algo
Mais negro que seus olhos
Que venha de mais fundo da terra
Talvez tenha acontecido uma catástrofe
No mais íntimo do mundo.
Talvez algo esteja para acontecer.
Afinal, algo tem de acontecer.
Os morcegos já deixaram a caverna. 

Heraclitiana

Continuam invadindo nossas casas
Nossos cães ladram para eles
Pois não os conhecem
Nós os conhecemos e não ladramos
Continuamos nos fingindo de mortos
E cadáveres, mais do que esterco,
São para se jogar fora e tudo que resta
É um jardim abandonado.

Coração de poeta.

Forte e delicado
Como um ninho.
Eis o coração do poeta
E nele os ovos de ferro do amor.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

terça-feira, 5 de novembro de 2013

É isso

Deixem-me cá
Caído
Gaguejo
Titubeio
Esforço-me
Como uma criança
Balbucio. E solidão é isso.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Risquem meu nome

(para A. Rimbaud)

Não quero ser razoável aqui:
risquem meu nome do livro imundo
das páginas destes dias em que sofri
atolado e cantando na merda deste humano mundo.

Nem ao mais excelente mendigo
poderão, agora, me comparar -
e na falta de um verdadeiro amigo
permaneço avaro e silente como o mar.

Não terão nada de mim, nem a morte!
quando chegarem encontrarão algo vazio,
nulo, como um abandonado casulo,
o sol é que me dissolverá!

Risquem meu nome
como se anula um mosquito
para sempre proscrito
como tudo que escrevo e tenho escrito.

Amanhecido

Uma lágrima
de absinto
escorre tépida
nos pelos ruivos.
Aurora. Rameira.