sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O principal

Antes de tudo, como ensina Platão;
não difamar os cisnes, depois bendizer
as borboletas que vivem apenas um só dia.
Amar as crianças e aprender-lhes o olhar aberto
ao mundo; e com esta nova visão olhá-lo sempre
como se nunca dantes tivesse visto nenhum céu
nenhum mar, nenhumas árvores, montanhas, animais,
cidades, gentes, objetos e todas as coisas mínimas.
Amar os velhos e aprender-lhes a força e a delicadeza
a tranquilidade e a virtude da compreensão -
"já que nem todos se libertaram ainda", aprender
com eles também a olhar, tudo, como fosse
pela última vez. "O sol é sempre novo e o rio flui constante".
Os poetas dizem que o mar é infinito. Os sábios dizem que o mar é infinito.

Ambos dizem o mesmo e dizem a verdade, porém, um são sensatos,
os outros são doidos, uns querem em suas águas apenas flutuar
e os outros querem atravessá-lo e torná-lo, finito,
assim ensina o gordo e cristão feliz que escreveu a Ortodoxia.
Sim, como disse brilhantemente algum francês "a vertigem do infinito".
É preciso coragem, disse o Homem do Sertão, e coragem
é feita de certa indiferença para com a vida, pois paradoxalmente
às vezes é preciso lutar contra a vida para que a própria vida siga
em frente, não cultuar a morte, mas desejá-la como fosse vinho,
dessa mistura de lucidez e embriagues obra-se coragem, é preciso coragem,

pois, se a vida torna-se uma ordem e o mundo uma câmara de gás,
é preciso saltar da janela. Toda a arte da vida consiste em aprender a depor o fardo.
Cada amanhecer um voo, mesmo que breve, sempre extremo.

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