(Foto: João Machado)
Meu caro, poeta,
edificaram uma estátua para ti
com cabeça (e óculos), tronco e membros,
mas, e o sentimento do mundo?
Agora que estás morto
como morto está também seu desejo
e o céu saqueado e de costas
estás para o mar, a contemplar
todos nós que ainda não nos libertamos
Agora que és de pedra de bronze
agora que tuas mãos e teus braços
quedam inertes e impassíveis
quando tuas retinas mesmas
são pétreas e sem cansaço - ah poeta -
a fome, a solidão, a miséria,
vêm deitar sobre seu colo, que desconsolo.
O amor de um poeta
a rosa de um povo
a pobreza da poesia
este país que nos engana
"Ai de mim, Copacabana, ai de mim!"
este menino que dorme sobre tua estátua
e que nunca leu teus versos.
Teu lago está podre.
Dirão: aí são outros quinhentos.
Mas, se cante ou cale (o mundo valer não vale) -
vede - a barbárie dos sofrimentos
o abandono e a solidão de cada pessoa que,
malgrado, tem um sangrento coração.
Não, não fale (o mundo valer não vale).
Deixe o menino dormir. Pois, o dia está aí para destruir sonhos.
quarta-feira, 19 de março de 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
Transmutações
E quando tentaram me pegar
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como o vento
E quando tentaram me impedir
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como a água
E quando tentaram me guiar
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como fogo
E quando tentaram me mover
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como a terra
Tudo isso porque haviam visto
Que eu era tão vulnerável
Como uma flor ao florescer.
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como o vento
E quando tentaram me impedir
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como a água
E quando tentaram me guiar
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como fogo
E quando tentaram me mover
Descobriram que não o poderiam
Pois que eu era como a terra
Tudo isso porque haviam visto
Que eu era tão vulnerável
Como uma flor ao florescer.
domingo, 2 de março de 2014
Impaciência
Não suporto mais
Tanta paciência
E diante a sapiência
Dos sábios imortais
Digo que a impaciência
Também sabe o que faz
Podem dizer que sou incapaz
De tal arte e que a prudência não erra
Mas ouçam o que vou falar
Quem tem fome e amor sobre a terra
Não pode esperar.
Tanta paciência
E diante a sapiência
Dos sábios imortais
Digo que a impaciência
Também sabe o que faz
Podem dizer que sou incapaz
De tal arte e que a prudência não erra
Mas ouçam o que vou falar
Quem tem fome e amor sobre a terra
Não pode esperar.
Conversa entre duas velhas sentadas na varanda.
- Fico boba de ver. Nesse mundo de terra a gente não vê
uma cabeça de vaca, nenhuma roça de nada.
- É mesmo.
(Trinta segundos depois)
- Eu não sei, nesse mundo de terra e a gente não vê uma
cabeça de vaca, nenhuma plantação de nada.
- Nossa, é mesmo.
(Trinta segundos depois)
- Credo, que calorão.
(Sem resposta)
(Trinta segundos depois)
- Que calorão.
(Sem resposta)
- Cê dormiu aí?
- Hum, ah, dei uma cochilada.
- Todo mundo deve tá dormindo, né?
- Ah, é, deve sim. Profundamente.
(Algum tempo depois)
- Olha, não tem uma criação, nenhuma plantação.
- Só arvore.
- Então né sô.
(Trinta segundos depois)
- Nossa, que calorão, credo.
- Hum, Hum, é... .
(Trinta segundos depois)
- Que lugar parado, não passa nada.
(Sem resposta)
- Cê dormiu?
- É, dei uma cochiladinha.
- Que lugar parado.
- Só tem arvore.
(Trinta segundos depois)
- Olha aquela roça de milho, passou da hora de cortar, tá
seca já.
- Tá mesmo. Olha as andorinhas.
(Trinta segundos depois)
- Não tem um ventinho.
- Não tem.
- Que calorão credo.
(Trinta segundos depois)
- Deve tá todo mundo dormindo.
- É deve sim, depois do almoço.
- Como se diz, que falta faz o marido da gente, se ele
tivesse aí, como se diz, a gente tava aí aproveitando a vida.
(Sem resposta)
- Cê dormiu?
- Dei uma cochilada.
- Que lugar parado, credo, não tem uma cabeça de vaca,
nenhuma roça de nada. Não passa um ventinho.
- Então.
- olha aquela roça de milho, já tá seca, passou da hora de
cortar.
(Assim segue até que chegue a morte)
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