Assumi
concentração de gavião e olhar de criança, mergulhei profundo no negro luminoso
dos seus olhos, fiz-me forte de delicadeza assim como um ninho é – capaz de
resguardar os ovos de ferro do amor. Adentrei o imperceptível e retornei lavado
em fogo, vi o perigo e precipitei-me ao seu abraço; Outra salvação não há –
Encará-lo ali onde não há risco, onde após o salto já tudo está arriscado, onde
há somente a inocência.
Mirei seu
rosto, que assim como o sol e a morte, não podia ser contemplado em enfrentá-lo
sem expor-se totalmente ao perigo da consumação, ao ainda longe possuía modos
de pássaro ento-ante o silêncio do sertão, deu em mim vontade disparatada num
pensamento incoerente de perguntar-lhe meu nome, era como se eu nunca houvesse
visto o céu, assumi o olhar humilde das vacas, sua voz alçava-me em indelével
brisa telúrica que eu sentia entre a terra quente e meus pés.
Estagnei a
distância para não espantar. em desfalecimento. Por quê, não ousava indagar-me.
Ao mesmo tempo nunca tinha me sentido tão junto à terra e como tudo era leve
não presenciei em depoises, algo tinha afetado o íntimo daquela manhã. Ela
não calou – cá parca vez escutei existência de sereia, mas era sabido nas
terras secas, através dos homens exilados do mar para estes interiores, onde o
mundo é cru em carne crua – que o canto destas aparições embriaga feito os
braços bons da Jurema dos sertões; Não pude crer, pois sentia inocência naquele
canto. Dava em mim que meu nome era bondade.
De moleque
sempre tive curiosidade em compreender o que era em mim que fazia com que os
pássaros revoassem e não permitissem acariciá-los ou o que era aquilo neles
mesmos, achei o mundo por demais misterioso de fundos falsos. Que era isso que
se designavam homem, assim é que me designaram, mas sempre fui
cá dentro inquieto, deste mistério fui levado em caminhada e ainda até então eu
só caminhava, nunca tive outra lida verdadeira, até quando a vi. Caminhava
guiado pelas luzes da noite e pelos bandos de pássaros que são os animais que melhor
conhecem os lugares onde há o que viceja. Ela não fugiu – A natureza não
precisa ser reformada, fui batizado em bondade.
De repente
sem-então cessou o canto, só a via nua de um segredo-imperceptível, seu
semblante era terrivelmente infantil e belo, ela desencantava qualquer mistério
do mundo, mas seu olhar era desenganado, desiludido, eu me sentia desmisturado
pelo seu olhar escuríssimo de se ver no escuro – Intrigante era uma luzinha que
brilhava constante, só aquilo me dava esperança, o homem não precisa ser
reformado.
Seus lábios
falsearam, mergulhei numa falta de ar em respirar vazios – ela continuava a
olhar-me e o que ela figurava não tinha expressão. Duvidava que eu estava ali,
era transpassado por seu olhar.
Ela não se
procurava em mim, ela me procurava com seu olhar, em suma, tão cego como os de
uma estátua, o inexpresso, o mais belo na estátua, o segredo da estátua da
pedra falante.
O silêncio que
atanaza as pessoas era para nós confortável leito para a
fluência. Sentei-me na sua frente diante de suas pernas, era de uma paz o
ambiente quando ainda o céu vibrava a púrpura profunda, uma paz que não carecia
de nada, conforme, até minha respiração era longa em intervalos, minhas narinas
estavam repletas do meu próprio cheiro, por onde eu me experimentava em
densidade – olhava a silhueta interna de suas pernas que desvelava enquanto
velava uma lança, era também um estreito portal para o reino-reino, aquela
passagem abriu-se quando ela lentamente abaixou-se de cócoras. Levou um dedo a
terra e suavemente passou em meus lábios, eu me senti limpo e estremeci. O
amigo pode dizer que folgo nestas palavras pequenas, mas naquele instante meus
orifícios fariam soar flauta.
Ela estava ali
também como eu, sem nenhuma herança, que a sorte da grande roda livrou-nos de
herdar. Sabes tu meu compadre velho, que nestas terras o que se herda é só
vingança, todas em prol dum tesouro que entre eles ninguém teria mãos para
pegar, que é o real, assim é que fio os meus pensares. Nesta terra onde
lágrima é diamante, não que esta terra não se banhe, às vezes se lava toda, não
raro empapa, água se torna sangue, muito se verte, mas crê? É tudo que se tem.
Sangue aqui vale pouco, mesmo sendo dos líquidos dos que mais se honra, sabem
os santos desta terra e todos eles têm cicatrizes, que nossa água não é água
que se bebe, é água que dá sede, nesta terra onde o povo é lavado em fogo duma
morte de luz que a tudo consome. Vê se não morre ainda, escuta essa passagem.
Ela disse e o
sol nascia em sol-nascer, isso ainda era segredo – “Não pode haver nada
entre vida e morte”. Sabes, não não, sossega, seus olhos crepitam como
pequeninos lírios, vai acordando meu amigo, que no escuro não chega ninguém.
Ela disse,
seguido em sem-então “Se eu fosse você eu teria nojo de mim”, foi
sem-então que eu disse “sabe o que eu às vezes pego em crer, que o nojo é
produzido por máquina de maldade para que não amemos os viventes”. Ela
sorriu e disparou correndo para os oestes. Pronto, acordou meu compadre velho... Que esta passagem soe como mens-agem no silêncio do sertão.
O sertão é
repleto de forcas sem hastes. Só o amor pode criar uma abertura entre vidamorte
– por onde tudo flui, verdadeira tra-vessia. Que essa passagem se perca nas
veredas. Essa passagem não se perderá. Todos os verdadeiros segredos são resguardados pelas crianças e pelos mortos. Amém.