quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Viver, ver, sonhar, morrer.

Não estive na cabeceira
de gente a morrer
Nem acompanhei
Parturientes e parteira
No trabalho de fazer nascer.
Muito mais sonhei
Do que vi realmente.
É pouco o tempo do viver
Muito o tempo de ver,
Sertão, entrante em frente
Rumo atravessar,
Mas muito mais é o tempo de sonhar
E morrer é coisa de sem-então.

Samba de pobreza e amor

Quando você chegar
Se é que chega,
Não vai ter nada sobre a mesa, nêga,
Mas haverá algo no ar
De inexplicável leveza 
E mesmo com a pobreza da casa
Dará a tudo um frêmito de asa
E um frescor de sonho
Como a este samba que componho
Imaginando você chegar.

Ai nêga! A faca tá tão cega
Que não corta nem seda, contudo,
Conceda: vem me amar.

A água é fria e a cama é dura
Mas pra tudo tem solução
Só o desamor não tem cura
E pobreza é não ter alegria no coração.

Sei que você não é a santa Amélia
E que não existe beleza na miséria
Mas quando a fome aperta tem sempre uma canção
E a gente canta e a gente bebe
A gente vive de samba
(nêgo não concebe)
Como mesmo na corda bamba
Passo por passo
A gente não perde o compasso
Não perde a chama

E se ama... e se ama... nêga, ó nêga...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Visita (in)esperada

Quando você chegar
Se é que chega,
Não vai ter nada sobre a mesa, nêga, 
Mas com certeza haverá algo no ar
De indescritível e indelével leveza
Que irá dizer-te que podes ficar,
Assim como quem não quer nada.

Quero um poema.

Quero escrever um poema
que se erga feito árvore
em xilema e floema

Quero escrever um poema
com o desprendimento de quem morre
quero que ele se erga na noite feito torre

Quero escrever um poema
que se erga por si mesmo, comovido,
que não fique girando à mesmo:

Neste mundo sem sentido.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Não permita

Simplesmente, não permita!
que um ponto final
interrompa o salto colossal
GRITA GRITA GRITA

Uma tocha na escuridão

(para o pequeno amigo do vento oeste)

e quando falta a água e o pão
e quando as crianças ficam sós
e do peito o miolo se evola
e quando irmão se perde do irmão
e as ruínas e a memória se cobrem de pós
e quando a inocência se viola
que paz pode restar no coração
dos poetas, que intimidade as pombas
podem ter com a Vida, se as bombas
exaurem todas as metas e tudo que resta
é uma terra consumida

e quando olhamos para o céu
e à ele erguemos os braços
o olhar errático
por trás do véu
e seus infinitos laços
em desespero cáustico
incautos
ignorantes holocaustos
diante o nada

"a vida não é nobre, nem boa, nem sagrada"

mas é terrivelmente bela
ó coração amante
do todo imanente
amá-la!
até seu último grau
de baixeza
vivê-la!
até todo peso
tornar-se leveza
bebê-la!
até
a última
gota
.

Mais uma canção do sábado

(esse poema foi musicado pelo músico-compositor e escritor
 Luís Capucho e faz parte de seu mais novo álbum Poema-Maldito)

(para Andressa)

Mais uma canção do sábado
eu acordei todo babado
tarado, de saudade de você.

A manhã é cinza e chuvosa
úmida tímida íntima silenciosa - Silêncio...

Que só a chuva sabe fazer nas coisas
que só o tempo sabe embelezar as flores
que só o tempo sabe cuidar das dores, agora,
que não há mais mamãe pra me esconder.

Olho ao meu redor na sala, olho pelas janelas
pra todas essas coisas belas
que não sabem como nem onde se esconder
assim tão frágeis tão corajosas tão nuas
como crianças perdidas que não sabem onde se esconder
vagando pelas ruas e avenidas.

Você não pode mais se esconder de mim.
Você não pode mais se esconder de mim.
Você está em todo lugar. Você está todo em todo lugar.

Os móveis que me observam
as facas na pia que me fitam tão gélidas
os livros que me olham tão palermas
as plantas tão ermas
e a água parada tão perigosa.

A manhã tão silenciosa, lá fora,
tão tranquila de viver...

Mas a verdade é uma criança brincando
fico sem saber onde me esconder
de tanta saudade de você

e como parte de parte alguma
olho por toda parte esperando por você
que não veio com a chuva
vagando pelas ruas e avenidas

Você não pode mais se esconder de mim.
Você não pode mais se esconder de mim.
Você está em todo lugar. Você está em todo lugar.



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Palco II

Lá estava.
O anjo do amor.
Um palhaço
rasgando sua última veste
de peito aberto
diante a fúria dos cassetetes
maquinados. O coração do palhaço
fica pulsando no meio do palco.
Todos se riem do coração do palhaço.
O coração do poeta, neste mundo de homens
de silício. O palhaço que rasgou sua última veste
que abriu seu peito de pássaro e touro guerreado
pela fúria dos cassetetes maquinados. O anjo do amor
abriu suas asas de ponta à ponta e de suas penas
um sangue purpúrero escorreu. O palhaço que se jogou
da janela e nunca mais foi visto. Seu coração ficou pulsando
no meio do palco. Ficou pulsando no meu pescoço, na minha jugular,
em meu esôfago, na minha falta de ar, em minhas profundas inspirações.
O palhaço não se conformava com alguém chorando. O palhaço
que se engasgou cedo demais com o caroço da morte na fruta da vida.
Cedo demais, ávido demais. Os comedores de pedra, os cagadores de pedra
tinham enterrado um defunto em sua língua, mas ele já não precisava mais dela,
todo seu corpo gritava. Em suas asas dormitavam iridescentes casulos. O anjo do amor.
Ele não trabalhava para a morte nem para os escravos da morte
ele nunca fez nada para a morte, exceto, ter nascido. O anjo do amor.
O palhaço rasgando sua última veste de peito aberto.
O anjo do amor disposto à tudo. Seus olhos vidrados no nada.
Seu coração pulsando no meio do palco. Seu coração pulsando em meu coração.
Ele morreria de peito aberto, mas era só. La estava.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sem-título

Duas cadeiras ali firmes e disponíveis, mas vim sentar-me no chão, afinal nada está tão firme e disponível assim nem mesmo o chão. Mas fazer o que? Um buraco, uma cova? Ora, a terra está sempre se movendo e sempre muito ocupada com tudo que dela compartilha e nela rasteja. Sentei-me no chão para que as facas não me percebessem tão friamente. Gostava de deixar as coisas ali inertes como num teatro extático, para que não me causassem danos e nem eu a elas. Nem ordem, nem desordem ao meu redor, ordem e desordem não são deuses, não cultuo nenhuma delas - nada ali ordenado ou desordenado. Gostava de ali mesmo ir para praias desertas que não há e que até mesmo eu fosse exterior a mim, o vazio, retirada a vacuidade de mim, murchando lentamente ao infinito num cansaço de tudo. Era o que tinha para então, mastigar alguma coisa e olhar ao redor. Fechei os ouvidos de todas as paredes e os olhos das janelas para que nenhum sentido ou significado pudesse reverberar entre nós e eu pudesse enfim, imperceptível, dormir tranqüilo. Insone a dias de azul que caíram numa brancura de noite num pretume de leite sempre amanhecido - e como poderia dormir? Com aquele assassino escondido no meu quarto, sempre junto de mim, com aquela palavra escrita na parede e que eu nunca havia notado, como ela havia ido parar ali? Como eu havia ido parar naquele estado? Como tudo tinha ido parar ali, naquele limiar? e eu sentia como um saltimbanco com medo de altura. Compreendi que a loucura assim como a morte nos compõe e que a morte é interminável assim como a vida. Dormi sem-então.





Sopro

Um poeta sopra
o branco-jasmim
o aroma encontra a moça.

Sem-título

Se não houvesse amor
A vida seria apenas uma dádiva fatal
E para sempre suas fontes
Sangrariam em vão por nossas feridas.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Rapto II

da folha cai a neve
luz que não se entende
pássaro canta leve
um poema se acende.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Palco

Lá estava.
O anjo do amor.
Um palhaço
rasgando sua última veste
de peito aberto
diante a fúria dos cassetetes
maquinados. Os comedores
de pedra, os cagadores de pedra
tinham enterrado um defunto
em sua língua, mas ele já não precisava
mais dela. Em suas asas dormitavam
iridescentes casulos. Ele não trabalhava
para a morte nem para os escravos da morte
ele nunca fez nada para a morte, exceto
ter nascido. O anjo do amor.
O palhaço rasgando sua última veste
de peito aberto. O anjo do amor disposto à tudo.
Seus olhos vidrados no nada.
Ele morreria de peito aberto, mas era só. La estava.

Rapto

um poema se acende
pássaro canta algo leve
luz que não se entende
da folha cai a neve.

Fundo do baú

Às vezes sinto que meu coração
ficou lá no fundo daquele baú
junto da criança que eu era na escuridão.
Fazendo mistério para si mesma
gorjeando uma serpentina canção.
Enquanto ouvia os passos das gentes
procurando o menino sumido, polissonantes.
Às vezes sinto que me esqueceram ali,
gritei, mas ninguém teria me ouvido,
talvez tenham se cansado de procurar enfim
ou eu teria lá esquecido à mim.

De quem ainda pode morrer jovem

Só há a solidão do olvido
E um mundo de luz em movimento
Que cega tal qual o esquecimento,
Ouço bem próximo ao meu ouvido

Os gritos inconclusos
Então resignado me sinto nesta cela solitária e comum
E vou buscá-los os cigarros um a um
Ouvindo todos nós que sofremos unidos e exclusos

Os fumo como um maníaco ou desesperado
Triste fardo intervalo entre minha conduta
Que respeita nossa condição absoluta
E respeitoso não ouso, condenado.

Mate-me o amor, estou preparado,
Mas que seja prolongado, ao menos;
Heautontimoroumenos -
Trás suas sementes e seu arado.

Sem-títiulo

Espero-te nos umbrais do poente
Quando o sol devora palpitantes corações
Dos heróis e amantes que se puseram a segui-lo fielmente
E no deserto com'um espero-te entre os leões.
Sou aquele que te espera na fonte
E quando chegares com a primavera
Festejando entre os animais a beleza de sua fronte
Com seus olhos como dois lucíferes, a mais bela fera,
Estenderei minhas mãos em concha
Que tudo vivifica frutifica e renova
Concha repleta d'água feliz que brota da rocha
Que tudo viceja e tu se farás toda cereja, lua-nova,
E eu te direi: Bebe primeiro, te peço, pequeno sol.
Já vislumbro os arcos e o promontório
Na altura da profundidade de sua inscrição
Nada mais terrificante desde o chamado do capitão
Quando ao mar se desfez o véu ilusório.
Desde que me levantei e estou consciente
Desde que estou consciente e me levantei
E tive a visão do sonho morto inda luminescente
E sobre ele no silêncio mais remoto jurei:
Desde que estou livre para roubar fogo
Advertido pelos deuses autorizado pelos vates
Levarei em mim esta inscrição como um rogo
Pelas furnas do gélido Hades - "É preciso que adentres para que o
                                                                                                       ser saia".

Lesma

Agora é insuportável
o silêncio e a indiferença
com que se tratam
as peças do jogo de xadrez
desde que encerramos
a última partida.

Insuportável ver o seu relógio
funcionando perfeitamente.
Insuportável também
ver os cabides extáticos.

Tudo parece tão inútil,
é até um descanso
e uma possibilidade de ver.

Mas é difícil, sem você.

O que era um cubículo
sem janelas para o céu
agora é enorme e vazio
como o céu, que não existe.

A porta que você abriu
está fechada dentro de mim
e eu fico na soleira
esperando você aparecer.

Como é triste seu violão
sem você. No espelho
só tem a minha cara
e no meio da minha cara
tem o nada, por onde
eu gostaria de desaparecer.

Mas como uma lesma
estou pregado na existência

como tudo.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cadeado

Já faz algum tempo que comprei um cadeado, o qual nunca usei, ainda está na embalagem e somente hoje é que reparei no que vem escrito como chamariz ao produto, diz assim logo abaixo da peça - O seu mundo bem guardado. Que mundo é esse que é o meu mundo?
O meu mundo era um pequenino sonho meu. E que mundo é esse que é mundo-guardável?
E o que há neste tal mundo, pode ser guardado? Que mundo este de cadeados e embalagens... No que era mesmo que eu teria de passar cadeado, o que eu teria de proteger? O cadeado permanece ali - com a frase de efeito que lhe acompanha e não tenho nada de meu. Porque alguém se trancaria em seu próprio mundo, quem é auto-suficiente? Quem se trancaria para fora de seu próprio mundo? Quem escreve essas malditas frases? Quem precisa de cadeado? Preciso respirar.

Baú

Ainda é possível sentir algo da leveza
Que é ficar sob o montinho de crianças
Ainda é possível sentir no estomago
Algo do mistério de existir dentro do baú

No esconde-esconde. A fruição do amor intelectual à Deus
Não deve ser mais tranquila e leve
Nem mais misteriosa que aquele baú da casa perdida.

Uma atriz

Que tipo de atriz
Você se diz?
Violenta
Lenta
Cruel
Sei o meu papel
Sei da profundidade
E da superfície
Todas as outras envelhecem
E se esquecem
Eu não envelheço
Eu não me esqueço
Eu insisto
E no tempo resisto
Não falo
Nem calo
Não ensino
Apenas assino
Sou escritura
Assignatura
Da história
Sou memória
Fruto da carne viva
À flor da pele.

Inesperado

Sopra um vento forte
e as páginas passam
vertiginosamente
embaralhando
indistintamente
vida e sonho.

Pombinha

Pombinha
Não se aflija
Ou se aflija
Ainda mais...
Até que não haja mais aflição.

Poesia não é divertimento
Pode ser para os sopradores
De palavras fátuas, fátuos que são.


Poesia é questão de vida ou morte.

Fazer um poema é salvar alguém
Mesmo que seja a si próprio
É trazer à luz
E sentir a dor da separação
Do que advém na criação.

A poesia é palavra-viva
É ave-palavra, é palavra-ave,
Ave-mestra. Poesia é invenção,
Descoberta.

Poesia não é divertimento
É o puro alimento
Dos que ardem de desejo
É o primoroso ensejo
Dos que vivem todo vão momento
É fazer libertar-se de cada coisa efêmera
Seu cativo e íntimo canto, que dura.

Poesia é a mão esquerda da vida

Poesia é uma coisa ruiva
Poesia é o calor que enrubesce
O metal da vida, da vida que é de metal
Mas delicada como uma orquídea.

É o destemor pela brevidade
É o fluir tranquilo
Pelo oceano infinito
E sem porto
Que a razão quer tornar finito
E morto.
Poesia é o mais fino tempero
Da mais nobre cozinha.

É a esperança que nos mantém
De olhos bem abertos
Mirando a luz da estrelinha
Que dança e dança em meio ao caos.


Poesia é o que continua as coisas
Os pássaros e as árvores
É o que leva tudo adiante
Assim como as flores
É a luz do peito radiante
É flor no calcanhar dançante
Que pisa a cabeça da serpente.

Poesia é coisa de instante
E instante é coisa que insiste –
Canto porque a vida re-ex(s)iste.

Poesia é o que faz Joana D’Arc
Rainha e falsa demente
Vir a ser contra parente
Das noras que nunca tivemos.
É o que anuncia
O que ainda não vemos
Mas que já brilha
Em auroras de mundos distantes.

Poesia é o retumbar de povos novos nascentes
É a magia que transforma o impossível
Em possível, o invisível em visível,
O inaudível em imagem audível.

Poesia é inconfundível.

Vai pombinha
Voa sobre as águas do dilúvio
Tu que foste lançada ao sacrifício
E traga consigo mens-agem

De nada mais nada menos
Que um mundo-grão.

sábado, 19 de outubro de 2013

Ciência da poesia: II.

É um dom da criança
que nunca se cansa
de recomeçar.
Isso vai tão longe
quanto o desenrolar
do carretel de sua pipa
de sua linha que vai ao infinito.
Isso e nada mais: é a ciência da poesia

Diálogo entre um velho e um moço: sobre a vida.

- Ah... quanto vivi,
  quantos dias
  e quantas noites.

- Muito mais é o que vi
   e ainda sou bem moço
   de joelhos fortes.

- Presunçoso. Incontáveis
   vezes meu coração
   já bateu.

- Sim... e inegáveis
   como as batidas do relógio
   mas o relógio nunca viveu
   e conta apenas as horas mortas
   o relógio nunca se comoveu.

- Sim... e assim como tu, garoto,
   nunca se conheceu nem se cansou.

- Não se diz que há mais vida
   que uma vida acontece
   quando até o coração parou?
   Neste entretempo pode passar tudo
   neste interregno pode passar toda uma povoação
   há mais do que nunca se sonhou, mais do que se ousou,
   mais do que se supunha ter ou ser, mais do que se doou.


Além

O único além é o que fica.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Despedida

Vou-me embora, vou-me embora:
Aqui não é o meu lugar
Aqui alegria não vigora
Não é livre quem precisa cantar!

Vou-me indo, vou-me indo:
Aqui não tenho onde encostar
O caminho é infindo
Para quem nele acreditar.

Vou-me, vou-me: até mais ver!
Adeus amigos, adeus...
Um abraço aos seus...
Não se esqueçam de mim, eu não vou morrer.

Fármacos

Nenhum medicamento pode
ser tomado com indiferença,
muito menos a morte.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Poesia para hoje e sempre

(Este texto foi tecido na noite do 17J de 2013 e é traspassado por inúmeras vozes)

Já estamos na rua, corpos e vento – as ruas nas ruas fazendo fluir e por elas nos sentimos bem e fortes. A rua é o lugar mais importante da cidade (Paulo Leminski!) e nelas estamos a disseminar a VACINAÇÃO ANTROPOFÁGICA que o ministério da saúde infelizmente não nos proporciona e o Estado quer dizimar as raízes! Sim, antropófagos! O homem blefa o Estado ou se revolta contra ele (Oswald de Andrade!) – Ouçam!

O TANTÃ dos homens de coração como murros, o TANTÃ do peito da terra (Michaux!). Já não podemos aceitar esta pazmaceira ao invés da paz e continuar a nos açoitar baixo o pau duma bandeira (esta quimera!), só o homem livre faz a paz, fique quem se fez incapaz, temos mais o que sonhar – A VIDA, ela por inteira e não pela metade queremos agora é ver face a face – Desejamos uma felicidade-guerreira.

Nosso alimento é uma matéria mais intensa, matéria de placenta, matéria de poesia.

Nossa fome é potência criativa. Contra essa saciada sociedade, contra a humanidade digestiva, liberamos esta fomem(o)(e)nstruosa e imensa. Nossa poesia assim como nossa fome recusa essa pesada-plenitude, somos essa completa-incompletude que não há poder que dome. Contra vossa ciência dietética apresentamos nossa recusa ética – Nossa recusa estética frente à vossa plenitude pós-prandial e contra o peristaltismo infernal que quer nos amassar no mesmo bolo fecal.

As forças da Fome e do Amor movimentam o mundo (Buddha) e é delas que nos compomos!

O que desejamos ainda não tem nome, nem povo e nem nação – E foge... (indomável e inominável) estranho animal do dedo indicador de Adão. Mas pode ser pressentido –?ESCUCHARON?– através do silencioso movimento daqueles que já vêm habitar um novo mundo, no ruir deste mundo caduco e nos gritos de prazer e dor das Multidões, que já não querem caber neste mundo e por isso precisam transformá-lo (Lis no peito).


Não queremos ser “razoáveis” aqui, as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis (Manuel de Barros). Queremos transver esta realidade que aí se apresenta. Miramos rumo ao distante e ao desconhecido, mas estamos atentos, pois sabemos que muitas vezes o distante e o desconhecido estão bem embaixo do nosso nariz! Então olhem a si, olhem ao lado, subam nos telhados, estamos a ir e vir por todos os lados.

Então damos um SALVE aos FILHOS DO SOL, aos FILHOS DO SAL, do SUL-GLOBAL, um SALVE!!! Já é tempo de o sol brilhar de o sul se libertar de o sal-gema transformar a rocha em anti-capitalístico e perene e dourado metal! Para este espaço aberto ao poético con-vocamos a todos para que venham exercitar nosso talento para o impossível, convocamos todos aqueles mens-ageiros do irrevelado que trazem no olhar a suprema dignidade de um barco-briáco que de repente perde o rumo, e assim encontra a senda para o desconhecido, o brilho de um poema que não se entende. AXÉ-SARAVÁ!!!

poesia faz milagres – e é preciso crer para ver – faz de um homem um poeta e de um corpo todo coração (Maiakovski). A magia da poesia consiste em abrir todas as coisas ao infinito (Blake). A poesia é fruto de um sentimento COMUM a todos – que é o AMOR, fruto precioso da árvore da liberdade. A poesia é antes de tudo um ato-total de amor e para tal é preciso dar o salto-mortal e para tal o passo heroico que nos lança na corda bamba entre a vida e a morte - VIDAMORTE. Um ato de amor é um ato livre e todo ato livre é criação, e não desejamos nada menos que um MUNDO-GRÃO onde possamos realmente habitar poeticamente a terra (Hölderlin). A atividade poética é a mais inocente e a humildade é a primeira condição do poeta. A poesia nasce como um deus nas estrebarias, forte e delicada como um ninho, uma manjedoura, cresce entre a ronda e a cana, um deus de bermuda e pé-de-chinelo, reizinho nagô, o corpo fechado por babalaôs; Entra nos aglomerados pelas vielas, becos quebradas montada num burro. E morre todos os dias na cruz que lhe ofertam. Irmãos, irmãs, irmãozinhos, porque me abandonaram? Por que nos abandonamos em cada cruz? Irmãos, irmãs e irmãozinhos nem tudo está consumado (Bosco) (Oswald), sempre nos restará liberdade para mudar o destino, assim nos ensina Cristo-Ogum com sua ressurreição, com a sua VIOLÊNCIA DIVINA.

Os povos não julgam do mesmo modo que os tribunais; Eles não dão veredictos, eles lançam raios; eles não condenam reis, eles jogam-nos no vazio; e essa justiça vale tanto quanto a dos tribunais (Robespierre).

poesia é a mão esquerda da vida, a poesia é uma coisa rubra, não queremos informar, queremos inventar, queremos que se descubra.

Dia assim

Dia cinzento
chuva antiguêra
sempre me sinto
um cágado em dia assim
lentamente esticando
o pescoço para fora.
Não suporto guarda-chuvas.


Nestes dias sou tomado
por uma esperança,
de que as pessoas tirem o dia
para descansar de tudo o que mortifica.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Primeiro Poema

(para Carlos Drummond de Andrade)

Roubei a mais bela rosa
no jardim da antiga escola
onde a professora ensinava
o que eu nunca aprendi.

O que deixei de ganhar
nunca medi. Sonhava, é o que fiz
e improvisava o meu caderno de aprendiz.
Regras, fórmulas, leis, nunca pude decorar.
Mas como poderia? Tanto faz quanto tanto fez
estava infuso do amor em português.

Quando nasci, um anjo rouco
destes que tomaram as mulheres,
depois de um uivo, disse: Acho é pouco
além de canhoto é ruivo.

Meu coração é um elefante
sai todo dia para passear
também faz o seu rumor
às vezes volta com uma flor, resfolegante,
porém, sempre tão indômito quanto partira.

Ainda bem jovem
sofrendo da angústia terrível
que só os extra-vagos mancebos sofrem,
daquela sede inextinguível -
tracei uma incerta, mas obstinada meta:

Morto, louco ou poeta.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Imagem

Seus olhos entre as flores.
Tão iguais entre si os seus segredos,
como elas hermeticamente abertos.

Cegueira

Um homem concebeu o Paraíso como um extraordinária biblioteca.
Seu nome é Jorge Luís Borges.

No decorrer de sua vida, como se sabe,
o artista ficou cego e claro não pôde mais ler até sua morte.

Moral da história: quem deseja alcançar o Paraíso,
seu paraíso, deve antes estar pronto para perdê-lo.

Desumana

(para Hilda Hilst, com seu dedo de Baphomet em riste)

Com os passos inocentes de uma criança
pisa a terra que te trouxe à vida
e vai te levar para a morte:

Pisa-a assim tão isenta -
de peso, de garras, de violência.
Assim, tão desumana.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Inaudito

Queres livrar-te dos outros
e os outros são muitos e difícil é livrar-se.
Livra-te então de ti primeiramente
e nenhuns deles poderão agarrar-te
nem tu a ti mesmo. Encontrarás algo melhor,
pior? Arre! Lança-te ao inaudito.


Lembra-te disso, ao menos; é o que basta e o que excede.

O peso do mundo

(para Carlos Drummond de Andrade)

Quem é o filósofo-médico, o artista quem ensina a depor o fardo?

É aquele! que vai ali com a dor do mundo na cacunda.

Mas, olha! Ele dança e brinca.

É que para ele é uma pluma, a mão de uma criança... .

Canção-despedida

Quisera transpor-me escalando marés
Ao sol solitário em praias negras
Que vislumbro entre colunas gregas
Infuso em horrores místicos e odores de estranhos rapés;

Nesta aurora rubra e desvirginada
Ir encontrar a anciã tecelã
Que ao tear como a um piano, enfeitiçada,
Tecendo eternamente a noite desfiando a madrugada em manhã –

Para vê-la arrebentar a crisálida
E sobre o corpo medonho e escamoso do Leviatã
Pousar trêmula a delicada borboleta
Como um barco de papel no charco
Para lamber sua íris azulizoleta.

Ouvi, ó minha alma!

É a canção-despedida dum marinheiro.

domingo, 13 de outubro de 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

A passagem que se perdeu no Sertão: ou o que foi falado na morte de Quelemém.

*- Pouco se vive, e muito se vê...*
João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas.

Assumi concentração de gavião e olhar de criança, mergulhei profundo no negro luminoso dos seus olhos, fiz-me forte de delicadeza assim como um ninho é – capaz de resguardar os ovos de ferro do amor. Adentrei o imperceptível e retornei lavado em fogo, vi o perigo e precipitei-me ao seu abraço; Outra salvação não há – Encará-lo ali onde não há risco, onde após o salto já tudo está arriscado, onde há somente a inocência.

Mirei seu rosto, que assim como o sol e a morte, não podia ser contemplado em enfrentá-lo sem expor-se totalmente ao perigo da consumação, ao ainda longe possuía modos de pássaro ento-ante o silêncio do sertão, deu em mim vontade disparatada num pensamento incoerente de perguntar-lhe meu nome, era como se eu nunca houvesse visto o céu, assumi o olhar humilde das vacas, sua voz alçava-me em indelével brisa telúrica que eu sentia entre a terra quente e meus pés.

Estagnei a distância para não espantar. em desfalecimento. Por quê, não ousava indagar-me. Ao mesmo tempo nunca tinha me sentido tão junto à terra e como tudo era leve não presenciei em depoises, algo tinha afetado o íntimo daquela manhã. Ela não calou – cá parca vez escutei existência de sereia, mas era sabido nas terras secas, através dos homens exilados do mar para estes interiores, onde o mundo é cru em carne crua – que o canto destas aparições embriaga feito os braços bons da Jurema dos sertões; Não pude crer, pois sentia inocência naquele canto. Dava em mim que meu nome era bondade.

De moleque sempre tive curiosidade em compreender o que era em mim que fazia com que os pássaros revoassem e não permitissem acariciá-los ou o que era aquilo neles mesmos, achei o mundo por demais misterioso de fundos falsos. Que era isso que se designavam homem, assim é que me designaram, mas sempre fui cá dentro inquieto, deste mistério fui levado em caminhada e ainda até então eu só caminhava, nunca tive outra lida verdadeira, até quando a vi. Caminhava guiado pelas luzes da noite e pelos bandos de pássaros que são os animais que melhor conhecem os lugares onde há o que viceja. Ela não fugiu – A natureza não precisa ser reformada, fui batizado em bondade.

De repente sem-então cessou o canto, só a via nua de um segredo-imperceptível, seu semblante era terrivelmente infantil e belo, ela desencantava qualquer mistério do mundo, mas seu olhar era desenganado, desiludido, eu me sentia desmisturado pelo seu olhar escuríssimo de se ver no escuro – Intrigante era uma luzinha que brilhava constante, só aquilo me dava esperança, o homem não precisa ser reformado.

Seus lábios falsearam, mergulhei numa falta de ar em respirar vazios – ela continuava a olhar-me e o que ela figurava não tinha expressão. Duvidava que eu estava ali, era transpassado por seu olhar.
Ela não se procurava em mim, ela me procurava com seu olhar, em suma, tão cego como os de uma estátua, o inexpresso, o mais belo na estátua, o segredo da estátua da pedra falante.

O silêncio que atanaza as pessoas era para nós confortável leito para a fluência. Sentei-me na sua frente diante de suas pernas, era de uma paz o ambiente quando ainda o céu vibrava a púrpura profunda, uma paz que não carecia de nada, conforme, até minha respiração era longa em intervalos, minhas narinas estavam repletas do meu próprio cheiro, por onde eu me experimentava em densidade – olhava a silhueta interna de suas pernas que desvelava enquanto velava uma lança, era também um estreito portal para o reino-reino, aquela passagem abriu-se quando ela lentamente abaixou-se de cócoras. Levou um dedo a terra e suavemente passou em meus lábios, eu me senti limpo e estremeci. O amigo pode dizer que folgo nestas palavras pequenas, mas naquele instante meus orifícios fariam soar flauta.

Ela estava ali também como eu, sem nenhuma herança, que a sorte da grande roda livrou-nos de herdar. Sabes tu meu compadre velho, que nestas terras o que se herda é só vingança, todas em prol dum tesouro que entre eles ninguém teria mãos para pegar, que é o real, assim é que fio os meus pensares. Nesta terra onde lágrima é diamante, não que esta terra não se banhe, às vezes se lava toda, não raro empapa, água se torna sangue, muito se verte, mas crê? É tudo que se tem. Sangue aqui vale pouco, mesmo sendo dos líquidos dos que mais se honra, sabem os santos desta terra e todos eles têm cicatrizes, que nossa água não é água que se bebe, é água que dá sede, nesta terra onde o povo é lavado em fogo duma morte de luz que a tudo consome. Vê se não morre ainda, escuta essa passagem.

Ela disse e o sol nascia em sol-nascer, isso ainda era segredo – “Não pode haver nada entre vida e morte”. Sabes, não não, sossega, seus olhos crepitam como pequeninos lírios, vai acordando meu amigo, que no escuro não chega ninguém.

Ela disse, seguido em sem-então “Se eu fosse você eu teria nojo de mim”, foi sem-então que eu disse “sabe o que eu às vezes pego em crer, que o nojo é produzido por máquina de maldade para que não amemos os viventes”. Ela sorriu e disparou correndo para os oestes. Pronto, acordou meu compadre velho... Que esta passagem soe como mens-agem no silêncio do sertão.


O sertão é repleto de forcas sem hastes. Só o amor pode criar uma abertura entre vidamorte – por onde tudo flui, verdadeira tra-vessia. Que essa passagem se perca nas veredas. Essa passagem não se perderá. Todos os verdadeiros segredos são resguardados pelas crianças e pelos mortos. Amém.

Poema-Nulo: Escrito num muro.

(para Salles Dounner, pintor e poeta francano)

Escrevo estas palavras
À beira do precipício
Mas não serão escravas
Do medo do extermínio
Escrevo estas palavras
À beira do precipício
Eis aqui o início
Do vôo destas asas
Escrevo estes versos
À beira do abismo
Escutando dos submersos
A revolta contra o egoísmo
Inscrevo este poema no muro
Na minha cara e na sua cara
Não tem nenhuma rima rara
É merda expe-lida do furo
Escavo este poema na terra
Em busca de um povo
Que em si encerra
Uma nova fé dentro do ovo
Traço de poesia o espaço
Me equilibro todo bamba
Sobre a corda bamba
Se apagarem refaço
Não escrevo à pena
Escrevo com prego
O estilo que emprego
Não faz cena
Entrega no ato
O contato
Pele a pele
Do desejo que impele
Deixo aqui esta marca
Que não é de marca
Pode ser parca
Mas arca
Com o risco
De não pagar o fisco
De ser de tom arisco
Não recuso arrisco
É com prego e martelada
É com uma fome desgraçada
Que escrevo este poema desdentado
Este poema descarado
Este poema rotundo
Esfera de miséria
Do grito mais profundo
Da voz mais ébria
A miséria não tem nome
A miséria esférica
Que envolve tudo em lama e fome
A nudez cadavérica
Exposta nas ruas
A miséria crescendo lodo
Revestindo as crianças nuas
Olhe a si olhe ao lado
Este lodo nos investe
De uma escandalosa indigência
Impregnada nas axilas 
E no sêmen que toma o ventre de peste
Escrevo diante dos cães sem residência
De gente das quais não se encontra parente delas
Que não tem datas que não tem o tempo marcado
Gente que vive neste mundo humano
No qual sobrevivem
Escrevo diante os analfabetos
Diante os índios e os que estão
Por trás das grades confinados
Diante os fatos e os fetos
Rejeitados e descartados
Diante os desterrados
Os humilhados
E os esquecidos

Diante os que se esvaem de desejo ardente
Dos que se negam diante à caducidade do mundo à trabalhar
Dos loucos dos que se perderam em amar
Diante o sol escaldante diante o presente
É com este prego enferrujado
Que minha mão traspassada
Grava este poema indisciplinado
Diante esta fachada
Contra a qual me choquei
E me gastei até a medula
Aqui neste beco cantei
Minha art-nula

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Alimento

Poesia e mais nada
Com tudo dentro.

Periclitante

Tem um cachorro louco e amordaçado
Ganindo dentro da minha cabeça
Tem uma lâmpada acesa
Queimando no meu estomago
Tem um pássaro querendo voar
Do meu peito e é com isso que eu sofro
Se ele voar eu morro.

Severíssima-hora

Se alguém no mundo
Por acaso chora
Nessa severa hora
Um pranto profundo:
Com ou sem razão
Não chora por mim –
Talvez assim
Chorasse em vão.

Se alguém pela noite à dentro
No labirinto encontra seu centro
E ali tece um poema
Seja lá qual for o tema:
Com ou sem razão
Não o tece para mim –
Talvez assim
Tecesse em vão.

Se alguém no mundo
Está morrendo por agora
Já não demora
Silêncio moribundo:
Com ou sem razão
Não morre por mim –
Talvez assim
Morresse em vão.

Se alguém no mundo
Vivo nesse momento
Rei ou vagamundo
Vive um sentimento:
Com ou sem razão
Não vive por mim –
Talvez assim
Vivesse em vão.

Se alguém no mundo
Espera uma canção
Canto aqui na solidão
Canto, contudo:
Com ou sem razão
Canto para mim –
Sendo assim
Espera em vão.