sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Elegia 2013 (para Carlos Drummond de Andrade e sua rosa

E se alguém ao despertar para o tradicional
pão com manteiga e o triste trabalho através do qual
alimenta este paciente terminal – a que chamais mundo
sentir algo ardendo nas entranhas e no peito profundo:

Sim, sinto dizer (não importa se Amarildo ou Raimundo),
talvez seja algo a lhe incitar algum (mesmo que parco) exemplo
como (sei lá) banir aos pontapés os mercadores do templo.

Talvez seja algo diferente dos velhos e habituais
gestos universais, através dos quais, igualamo-nos a todos os demais,
até mesmo os heróis nacionais – Que do alto de suas estátuas
ou estantes - preconizam em silêncio as virtudes cardinais.

Sei que sai contrariado do jugo aniquilador que a noite encerra
“Com pode, Meu Deus, como pode, com tanta guerra”
disseminada por todos os flancos desta terra

mas nenhuma bala veio lhe visitar e te repões a correr
já que desperto não estás mais dispensado de morrer
e tens de prover a família e as engrenagens da Grande Máquina
que te prova a pequenez de sua pobre existência sem palmeiras.

É preciso que lhe diga, corajosa e francamente,
que isso que você estranhamente sente
pode ser um resquício de vida a urdir uma nova semente.

Sei que não é fácil ter de suportar,
inda mais com o fulminante olhar da polícia, dos patrões e dos amigos,
mas, fazer o que, vez ou outra por força tens de sonhar
e quem sabe até mesmo - semear e amar.

Talvez não possas mais confessar tua derrota
talvez não possas mais te satisfazer com uma simples nota
talvez não seja mais suficiente o medo da rota - para lhe amedrontar.

Conforme-se com o fato, talvez não possas mais adiar
para o século seguinte o júbilo monstruoso da multidão
nem aceitar a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição.


Porque podes, amigo, em comum comigo, dinamitar a ilha de Brasília.

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