Duas
cadeiras ali firmes e disponíveis, mas vim sentar-me no chão, afinal nada está
tão firme e disponível assim nem mesmo o chão. Mas fazer o que? Um buraco, uma cova? Ora, a
terra está sempre se movendo e sempre muito ocupada com tudo que dela
compartilha e nela rasteja. Sentei-me no chão para que as facas não me percebessem
tão friamente. Gostava de deixar as coisas ali inertes como num teatro extático,
para que não me causassem danos e nem eu a elas. Nem ordem, nem desordem ao meu
redor, ordem e desordem não são deuses, não cultuo nenhuma delas - nada ali
ordenado ou desordenado. Gostava de ali mesmo ir
para praias desertas que não há e que até mesmo eu fosse exterior a mim, o
vazio, retirada a vacuidade de mim, murchando lentamente ao infinito num
cansaço de tudo. Era o que tinha para então, mastigar alguma coisa e olhar ao
redor. Fechei os ouvidos de todas as paredes e os olhos das janelas para que
nenhum sentido ou significado pudesse reverberar entre nós e eu pudesse enfim,
imperceptível, dormir tranqüilo. Insone a dias de azul que caíram numa brancura
de noite num pretume de leite sempre amanhecido - e como poderia dormir? Com
aquele assassino escondido no meu quarto, sempre junto de mim, com aquela palavra escrita na
parede e que eu nunca havia notado, como ela havia ido parar ali? Como eu havia ido parar naquele estado? Como tudo tinha ido parar ali, naquele limiar? e eu sentia
como um saltimbanco com medo de altura. Compreendi que a loucura assim como a
morte nos compõe e que a morte é interminável assim como a vida. Dormi sem-então.
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