segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pombinha

Pombinha
Não se aflija
Ou se aflija
Ainda mais...
Até que não haja mais aflição.

Poesia não é divertimento
Pode ser para os sopradores
De palavras fátuas, fátuos que são.


Poesia é questão de vida ou morte.

Fazer um poema é salvar alguém
Mesmo que seja a si próprio
É trazer à luz
E sentir a dor da separação
Do que advém na criação.

A poesia é palavra-viva
É ave-palavra, é palavra-ave,
Ave-mestra. Poesia é invenção,
Descoberta.

Poesia não é divertimento
É o puro alimento
Dos que ardem de desejo
É o primoroso ensejo
Dos que vivem todo vão momento
É fazer libertar-se de cada coisa efêmera
Seu cativo e íntimo canto, que dura.

Poesia é a mão esquerda da vida

Poesia é uma coisa ruiva
Poesia é o calor que enrubesce
O metal da vida, da vida que é de metal
Mas delicada como uma orquídea.

É o destemor pela brevidade
É o fluir tranquilo
Pelo oceano infinito
E sem porto
Que a razão quer tornar finito
E morto.
Poesia é o mais fino tempero
Da mais nobre cozinha.

É a esperança que nos mantém
De olhos bem abertos
Mirando a luz da estrelinha
Que dança e dança em meio ao caos.


Poesia é o que continua as coisas
Os pássaros e as árvores
É o que leva tudo adiante
Assim como as flores
É a luz do peito radiante
É flor no calcanhar dançante
Que pisa a cabeça da serpente.

Poesia é coisa de instante
E instante é coisa que insiste –
Canto porque a vida re-ex(s)iste.

Poesia é o que faz Joana D’Arc
Rainha e falsa demente
Vir a ser contra parente
Das noras que nunca tivemos.
É o que anuncia
O que ainda não vemos
Mas que já brilha
Em auroras de mundos distantes.

Poesia é o retumbar de povos novos nascentes
É a magia que transforma o impossível
Em possível, o invisível em visível,
O inaudível em imagem audível.

Poesia é inconfundível.

Vai pombinha
Voa sobre as águas do dilúvio
Tu que foste lançada ao sacrifício
E traga consigo mens-agem

De nada mais nada menos
Que um mundo-grão.

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