sábado, 12 de outubro de 2013

A passagem que se perdeu no Sertão: ou o que foi falado na morte de Quelemém.

*- Pouco se vive, e muito se vê...*
João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas.

Assumi concentração de gavião e olhar de criança, mergulhei profundo no negro luminoso dos seus olhos, fiz-me forte de delicadeza assim como um ninho é – capaz de resguardar os ovos de ferro do amor. Adentrei o imperceptível e retornei lavado em fogo, vi o perigo e precipitei-me ao seu abraço; Outra salvação não há – Encará-lo ali onde não há risco, onde após o salto já tudo está arriscado, onde há somente a inocência.

Mirei seu rosto, que assim como o sol e a morte, não podia ser contemplado em enfrentá-lo sem expor-se totalmente ao perigo da consumação, ao ainda longe possuía modos de pássaro ento-ante o silêncio do sertão, deu em mim vontade disparatada num pensamento incoerente de perguntar-lhe meu nome, era como se eu nunca houvesse visto o céu, assumi o olhar humilde das vacas, sua voz alçava-me em indelével brisa telúrica que eu sentia entre a terra quente e meus pés.

Estagnei a distância para não espantar. em desfalecimento. Por quê, não ousava indagar-me. Ao mesmo tempo nunca tinha me sentido tão junto à terra e como tudo era leve não presenciei em depoises, algo tinha afetado o íntimo daquela manhã. Ela não calou – cá parca vez escutei existência de sereia, mas era sabido nas terras secas, através dos homens exilados do mar para estes interiores, onde o mundo é cru em carne crua – que o canto destas aparições embriaga feito os braços bons da Jurema dos sertões; Não pude crer, pois sentia inocência naquele canto. Dava em mim que meu nome era bondade.

De moleque sempre tive curiosidade em compreender o que era em mim que fazia com que os pássaros revoassem e não permitissem acariciá-los ou o que era aquilo neles mesmos, achei o mundo por demais misterioso de fundos falsos. Que era isso que se designavam homem, assim é que me designaram, mas sempre fui cá dentro inquieto, deste mistério fui levado em caminhada e ainda até então eu só caminhava, nunca tive outra lida verdadeira, até quando a vi. Caminhava guiado pelas luzes da noite e pelos bandos de pássaros que são os animais que melhor conhecem os lugares onde há o que viceja. Ela não fugiu – A natureza não precisa ser reformada, fui batizado em bondade.

De repente sem-então cessou o canto, só a via nua de um segredo-imperceptível, seu semblante era terrivelmente infantil e belo, ela desencantava qualquer mistério do mundo, mas seu olhar era desenganado, desiludido, eu me sentia desmisturado pelo seu olhar escuríssimo de se ver no escuro – Intrigante era uma luzinha que brilhava constante, só aquilo me dava esperança, o homem não precisa ser reformado.

Seus lábios falsearam, mergulhei numa falta de ar em respirar vazios – ela continuava a olhar-me e o que ela figurava não tinha expressão. Duvidava que eu estava ali, era transpassado por seu olhar.
Ela não se procurava em mim, ela me procurava com seu olhar, em suma, tão cego como os de uma estátua, o inexpresso, o mais belo na estátua, o segredo da estátua da pedra falante.

O silêncio que atanaza as pessoas era para nós confortável leito para a fluência. Sentei-me na sua frente diante de suas pernas, era de uma paz o ambiente quando ainda o céu vibrava a púrpura profunda, uma paz que não carecia de nada, conforme, até minha respiração era longa em intervalos, minhas narinas estavam repletas do meu próprio cheiro, por onde eu me experimentava em densidade – olhava a silhueta interna de suas pernas que desvelava enquanto velava uma lança, era também um estreito portal para o reino-reino, aquela passagem abriu-se quando ela lentamente abaixou-se de cócoras. Levou um dedo a terra e suavemente passou em meus lábios, eu me senti limpo e estremeci. O amigo pode dizer que folgo nestas palavras pequenas, mas naquele instante meus orifícios fariam soar flauta.

Ela estava ali também como eu, sem nenhuma herança, que a sorte da grande roda livrou-nos de herdar. Sabes tu meu compadre velho, que nestas terras o que se herda é só vingança, todas em prol dum tesouro que entre eles ninguém teria mãos para pegar, que é o real, assim é que fio os meus pensares. Nesta terra onde lágrima é diamante, não que esta terra não se banhe, às vezes se lava toda, não raro empapa, água se torna sangue, muito se verte, mas crê? É tudo que se tem. Sangue aqui vale pouco, mesmo sendo dos líquidos dos que mais se honra, sabem os santos desta terra e todos eles têm cicatrizes, que nossa água não é água que se bebe, é água que dá sede, nesta terra onde o povo é lavado em fogo duma morte de luz que a tudo consome. Vê se não morre ainda, escuta essa passagem.

Ela disse e o sol nascia em sol-nascer, isso ainda era segredo – “Não pode haver nada entre vida e morte”. Sabes, não não, sossega, seus olhos crepitam como pequeninos lírios, vai acordando meu amigo, que no escuro não chega ninguém.

Ela disse, seguido em sem-então “Se eu fosse você eu teria nojo de mim”, foi sem-então que eu disse “sabe o que eu às vezes pego em crer, que o nojo é produzido por máquina de maldade para que não amemos os viventes”. Ela sorriu e disparou correndo para os oestes. Pronto, acordou meu compadre velho... Que esta passagem soe como mens-agem no silêncio do sertão.


O sertão é repleto de forcas sem hastes. Só o amor pode criar uma abertura entre vidamorte – por onde tudo flui, verdadeira tra-vessia. Que essa passagem se perca nas veredas. Essa passagem não se perderá. Todos os verdadeiros segredos são resguardados pelas crianças e pelos mortos. Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário