Já estamos na rua, corpos e vento – as ruas nas ruas fazendo fluir e por elas nos sentimos bem e fortes. A rua é o lugar mais importante da cidade (Paulo Leminski!) e nelas estamos a disseminar a VACINAÇÃO ANTROPOFÁGICA que o ministério da saúde infelizmente não nos proporciona e o Estado quer dizimar as raízes! Sim, antropófagos! O homem blefa o Estado ou se revolta contra ele (Oswald de Andrade!) – Ouçam!
O TANTÃ dos homens de coração como murros, o TANTÃ do peito da terra (Michaux!). Já não podemos aceitar esta pazmaceira ao invés da paz e continuar a nos açoitar baixo o pau duma bandeira (esta quimera!), só o homem livre faz a paz, fique quem se fez incapaz, temos mais o que sonhar – A VIDA, ela por inteira e não pela metade queremos agora é ver face a face – Desejamos uma felicidade-guerreira.
Nosso alimento é uma matéria mais intensa, matéria de placenta, matéria de poesia.
Nossa fome é potência criativa. Contra essa saciada sociedade, contra a humanidade digestiva, liberamos esta fomem(o)(e)nstruosa e imensa. Nossa poesia assim como nossa fome recusa essa pesada-plenitude, somos essa completa-incompletude que não há poder que dome. Contra vossa ciência dietética apresentamos nossa recusa ética – Nossa recusa estética frente à vossa plenitude pós-prandial e contra o peristaltismo infernal que quer nos amassar no mesmo bolo fecal.
As forças da Fome e do Amor movimentam o mundo (Buddha) e é delas que nos compomos!
O que desejamos ainda não tem nome, nem povo e nem nação – E foge... (indomável e inominável) estranho animal do dedo indicador de Adão. Mas pode ser pressentido –?ESCUCHARON?– através do silencioso movimento daqueles que já vêm habitar um novo mundo, no ruir deste mundo caduco e nos gritos de prazer e dor das Multidões, que já não querem caber neste mundo e por isso precisam transformá-lo (Lis no peito).
Não queremos ser “razoáveis” aqui, as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis (Manuel de Barros). Queremos transver esta realidade que aí se apresenta. Miramos rumo ao distante e ao desconhecido, mas estamos atentos, pois sabemos que muitas vezes o distante e o desconhecido estão bem embaixo do nosso nariz! Então olhem a si, olhem ao lado, subam nos telhados, estamos a ir e vir por todos os lados.
Então damos um SALVE aos FILHOS DO SOL, aos FILHOS DO SAL, do SUL-GLOBAL, um SALVE!!! Já é tempo de o sol brilhar de o sul se libertar de o sal-gema transformar a rocha em anti-capitalístico e perene e dourado metal! Para este espaço aberto ao poético con-vocamos a todos para que venham exercitar nosso talento para o impossível, convocamos todos aqueles mens-ageiros do irrevelado que trazem no olhar a suprema dignidade de um barco-briáco que de repente perde o rumo, e assim encontra a senda para o desconhecido, o brilho de um poema que não se entende. AXÉ-SARAVÁ!!!
A poesia faz milagres – e é preciso crer para ver – faz de um homem um poeta e de um corpo todo coração (Maiakovski). A magia da poesia consiste em abrir todas as coisas ao infinito (Blake). A poesia é fruto de um sentimento COMUM a todos – que é o AMOR, fruto precioso da árvore da liberdade. A poesia é antes de tudo um ato-total de amor e para tal é preciso dar o salto-mortal e para tal o passo heroico que nos lança na corda bamba entre a vida e a morte - VIDAMORTE. Um ato de amor é um ato livre e todo ato livre é criação, e não desejamos nada menos que um MUNDO-GRÃO onde possamos realmente habitar poeticamente a terra (Hölderlin). A atividade poética é a mais inocente e a humildade é a primeira condição do poeta. A poesia nasce como um deus nas estrebarias, forte e delicada como um ninho, uma manjedoura, cresce entre a ronda e a cana, um deus de bermuda e pé-de-chinelo, reizinho nagô, o corpo fechado por babalaôs; Entra nos aglomerados pelas vielas, becos e quebradas montada num burro. E morre todos os dias na cruz que lhe ofertam. Irmãos, irmãs, irmãozinhos, porque me abandonaram? Por que nos abandonamos em cada cruz? Irmãos, irmãs e irmãozinhos nem tudo está consumado (Bosco) (Oswald), sempre nos restará liberdade para mudar o destino, assim nos ensina Cristo-Ogum com sua ressurreição, com a sua VIOLÊNCIA DIVINA.
Os povos não julgam do mesmo modo que os tribunais; Eles não dão veredictos, eles lançam raios; eles não condenam reis, eles jogam-nos no vazio; e essa justiça vale tanto quanto a dos tribunais (Robespierre).
A poesia é a mão esquerda da vida, a poesia é uma coisa rubra, não queremos informar, queremos inventar, queremos que se descubra.
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