Homem sentado no gramado, lendo.
Aproxima-se uma mulher e o interrompe.
- você é o beto?
- infelizmente não. mas poderia ser qualquer um, posso sonhar por todos eles, só não posso ser eu. mas nisso não sou diferente do beto, isso nos falta à todos. resta-nos apenas algo geral e impossível que somos todos nós, mas que não pode ser. engraçado, não é? só não sei porque não rio.
A mulher atônita - agradeço.
- mas e você (Impedindo que ela se fosse), quem é?
- olha, já não sei o que dizer.
- não diga... não se preocupe acontece muito comigo. você não vai embora?
- estava mesmo indo, mas já não sei o que fazer.
- idem! quem é beto?
- não importa agora. poderíamos caminhar um pouco. O que acha?
- e por quê eu acharia algo? teria?
- ora, vamos!
Pega o livro dele - o que está lendo?
- não me lembro bem, algo sobre as estrelas e elas serem mães de tudo aquilo que nos compõe e que um dia retornará para seus ventres.
- gosta de física?
- eu encontrei o livro aqui mesmo.
- o que veio fazer aqui?
- ficar ao sol, como um lagarto, me abandonar aqui um pouco.
- mas porque não se banhou e abandonou onde estava?
Vão andando.
- estava a dias trancado, não podia mais.
- onde?
- no hospício.
- então você é... doidim?
- no hospício tem todo tipo de gente.
- assim como na cadeia. Ou na cadeia tem só dois tipos? culpados e inocentes. deixa isso pra lá.
- isso mesmo.
- mas afinal...
- não sei, mas se o for, com pleno direito de ser. a loucura faz parte da gente, assim como a morte, não se deve negá-la, enclausura-la.
- você gostaria de morrer?
- ninguém pode viver ou morrer.
- mas não estamos vivos?
- sei lá. não sei se podemos distinguir facilmente vivos de mortos. aquele ali mesmo que vai passando, caminhando, pode já estar morto, muito bem isso pode ser, nada impede creio eu. Um cadáver não prova nada, não me diz nada.
- deve ser porque está morto.
Se ri - nem os corpos morrem.
- e você o que veio fazer aqui?
- você já me perguntou isso.
- você é que me perguntou.
- pare! (param) não quero falar disso.
- do que quer falar?
- ... das estrelas.
- não sei nada de estrelas.
- sabe que elas são mães de tudo aqui.
- é o que dizem os astrofísicos.
- bem parecidos com poetas, não é?
- e com crianças.
- mas eles sabem realmente que todos os elementos tal e tal... .
- é, mas pouco importa.
- e newton que precisou de uma parafernália e uma câmara escura para constatar que do raio de luz branca derivam-se outras cores.
- e o que tem?
- ora, deite aqui. (ele se deita) agora feche os olhos, com mais força agora. o que viu?
- as cores. do vermelho ao violeta no mais profundo e escuro.
- viu? quantas crianças poderiam ter feito isso, ter feito a experiência e quantas fizeram antes de newton.
- mas não eram cientistas, eram apenas crianças. tinham uma atitude diferente diante o mundo.
- é verdade. mas as crianças e os poetas fariam dessa experiência algo mais belo e vivo.
- é verdade, mas não faria com que progredíssemos na óptica.
- que seja. ainda teríamos os olhos.
Nunca mais se separaram.
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