I
O que ocultas?
A pele com suas volutas
não é tão profunda, é crível,
como tu, ineludível.
Quem tu és? É a morte?
Ou algo assim consorte –
O que há entre nós é um corte
e é a dor que nos une?
Mas pareces assim tão imune.
II
Quando foi que nos reconhecemos?
Quando foi que nos esquecemos?
Certo é que ainda não nos acostumamos
e não raro mutuamente nos espantamos
com essa terrível co-presença
que com vossa licença (digo) não dá uma.
III
Enquanto fumo
fuma
quando sumo
tu não somes
tu nunca dormes
e me denuncia
e me agonia
tu és vazia
como tudo,
contudo...
IV
Tu me acompanhas
tu, demônio, o que sonhas?
Tão tão distante
tua presença é tão ausente
assim tão rente
e de nós somos descrentes
assim tão indiferentes
e nossos segredos tão iguais
que nos confundimos.
V
Quando não estás visível
Para onde vais?
Não sei onde se escondes
por acaso se recolhes
sob meus pés, em suas raízes?
Em tu há quantas atrizes?
Há quantas vidas?
Onde estão suas cicatrizes?
Para o que é que me convidas,
para uma contra-dança? Queres dançar?
Queres apostar umas corridas?
Queres se libertar?
V
Sei que por nada tu falarias
nem sob mil torturas
não sei como me aturas
nada responderias
tu que não falas
nem calas
em nosso monólogo infinito.
O que guardas é um grito?
VI
Tu és o que sobra
ou aquilo que falta
pequenina ou torre alta?
VII
Informe sombra
pura pantomima
em tu que me nego
tu que me confirma.
VIII
Espelho cego.
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