Lá estava.
O anjo do amor.
Um palhaço
rasgando sua última veste
de peito aberto
diante a fúria dos cassetetes
maquinados. O coração do palhaço
fica pulsando no meio do palco.
Todos se riem do coração do palhaço.
O coração do poeta, neste mundo de homens
de silício. O palhaço que rasgou sua última veste
que abriu seu peito de pássaro e touro guerreado
pela fúria dos cassetetes maquinados. O anjo do amor
abriu suas asas de ponta à ponta e de suas penas
um sangue purpúrero escorreu. O palhaço que se jogou
da janela e nunca mais foi visto. Seu coração ficou pulsando
no meio do palco. Ficou pulsando no meu pescoço, na minha jugular,
em meu esôfago, na minha falta de ar, em minhas profundas inspirações.
O palhaço não se conformava com alguém chorando. O palhaço
que se engasgou cedo demais com o caroço da morte na fruta da vida.
Cedo demais, ávido demais. Os comedores de pedra, os cagadores de pedra
tinham enterrado um defunto em sua língua, mas ele já não precisava mais dela,
todo seu corpo gritava. Em suas asas dormitavam iridescentes casulos. O anjo do amor.
Ele não trabalhava para a morte nem para os escravos da morte
ele nunca fez nada para a morte, exceto, ter nascido. O anjo do amor.
O palhaço rasgando sua última veste de peito aberto.
O anjo do amor disposto à tudo. Seus olhos vidrados no nada.
Seu coração pulsando no meio do palco. Seu coração pulsando em meu coração.
Ele morreria de peito aberto, mas era só. La estava.
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