quarta-feira, 19 de março de 2014

Ao poeta

                                                             (Foto: João Machado)

Meu caro, poeta,

edificaram uma estátua para ti
com cabeça (e óculos), tronco e membros,
mas, e o sentimento do mundo?

Agora que estás morto
como morto está também seu desejo
e o céu saqueado e de costas
estás para o mar, a contemplar
todos nós que ainda não nos libertamos

Agora que és de pedra de bronze
agora que tuas mãos e teus braços
quedam inertes e impassíveis
quando tuas retinas mesmas
são pétreas e sem cansaço - ah poeta -

a fome, a solidão, a miséria,
vêm deitar sobre seu colo, que desconsolo.

O amor de um poeta
a rosa de um povo
a pobreza da poesia
este país que nos engana
"Ai de mim, Copacabana, ai de mim!"
este menino que dorme sobre tua estátua

e que nunca leu teus versos.

Teu lago está podre.
Dirão: aí são outros quinhentos.

Mas, se cante ou cale (o mundo valer não vale) -
vede - a barbárie dos sofrimentos
o abandono e a solidão de cada pessoa que,
malgrado, tem um sangrento coração.
Não, não fale (o mundo valer não vale).
Deixe o menino dormir. Pois, o dia está aí para destruir sonhos.

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