(para o poeta conhecedor da linguagem dos pássaros, Attar)
I
Um homem se perdeu
De amor por seu rei
E de amar quase morreu
Na noite do tormento mais atroz:
Por ele, ó majestade, chorei,
Até que lágrima se fizesse sangue
De companhia, no deserto, apenas minha voz,
Na mais dolorosa solidão.
Mas ainda meu peito plange
Resta um acorde em meu coração
Sou apenas um mendigo
Que poderia um rei querer comigo?
Contudo, antes que eu morra,
Antes que ele se dissolva no ar
É preciso que o rei se disponha a escutar
Vamos, vá cavalo, corra!
Talvez aos seus ouvidos
Se revele o sentido
Do acorde comovido
E estes meus segredos.
II
Ai, homem inebriado,
Me espanta e me encanta
Vossa coragem, pobre coitado,
E sua voragem, esta secura em sua garganta.
Porém, eis onde seu amor
Te trouxe pelo deserto da dor
Ou morrerás para estas terras
Ou morrerás de uma vez para tudo.
Podes optar, enfim... (por que medras?)
Pelo exílio ou seu próprio fim
E assim deixar este mundo
Eis a minha resolução.
III
Amado, se esta é minha situação,
Escolho o triste exílio e seu amargor
E lá, seguirei te adorando, seja onde for,
Esta é minha opção.
IV
Cortem já a cabeça
Deste homem perdido
Antes que escureça
Quero vê-lo partido!
Não és vero amante
Para isso se ver
Não carece nenhum clarividente
Está patente, não sabes morrer.
Como então podes amar
Aliás, como podes assim viver?
Falso amante, toda sua dor foi vã,
Assim como vazio é seu penar
Se perdeste em sonhar
E todo seu sonho é mero afã.
Tu se vanglorias, ó presunçoso,
Contudo, em seu coração,
Ao invés de amor, amor precioso,
Há apenas inglória pretensão.
Preferiste tua cabeça, mentiroso,
Que importa, agora, suas horas de aflição,
Se quando diante de seu rei amoroso
Tomaste tal decisão?
Fica sabendo, estranho mendigo,
Que se tu trilhasse a via do amor
Eu seguiria caminhando contigo
Compartilhando as asperezas e o esplendor.
Apenas com loucura e delicadeza
Sem força nem espada
Em sua nua pobreza
Terias toda essa terra destronada.
Contudo, não és homem de ação,
Tal homem não delibera nem escolhe
Então, agora que plantaste colhe,
Sempre a velha e nunca aprendida lição.
Não te esqueça, meu caro,
Que se fosse amor verdadeiro
O que há de mais difícil e raro
Ofereceria eu minha cabeça e poderio.
Terias um fiel e íntimo amigo
E o rei serviria ao mendigo.
Que ninguém se vanglorie
Nem se arrisque sem forte resolução
Sem que seu peito irradie
E aberto esteja seu coração.
Que ninguém venha me seduzir
Quando nada sabe de si
Nem possa se conduzir
Na via sem medida do amor.
É o que digo para ti, inútil sofredor.
Afinal, que sou eu para ser digno da graça de amar?
Como tu cheguei a este mundo animalizado
Com fome e desabrigado
E assim o deixarei
Não obstante se fui rei.
Nada obsta meu frágil poder
Mesmo que vasto
De tudo isso me afasto
Quando morrer.
Bem possível que nem a história nos acolha
Quando sobrevier a inevitável mortalha
Se de mim se lembrarem será por batalha infame
E fátuo, vão, será o meu nome.
Se fosses vero amante, fiel amigo,
Talvez, por extraordinário enlace,
Muito mais tarde diriam do rei e do mendigo
Em um poema que nos engrace.
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