quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Primeira parte de um diálogo imaginário com Sócrates.

I
***

Imaginei ao sair agora para a rua, vindo caminhando do outro lado, sozinho na noite, sob a chuva, como vou, o velho Sócrates, que chegando até perto, dissesse:

Meu caro amigo, diga-me, você está preparado para dar a razão do seu atual modo de viver? Está preparado para responder adequadamente aos desafios que são lançados diante de ti? Diga-me, rapaz, no que está baseada toda a sua vida?

E, simplesmente não ficasse com medo, simplesmente parasse de debater-me no vazio como um peixe fora de seu elemento natural, como um louco, por um instante que fosse e nesse presente instante sentisse demasiado fundo e pensasse claro, a absurda inutilidade de todo este terrível esforço e percebesse que nunca houve realmente uma vítima e um carrasco, que a vítima era o carrasco e o carrasco era a vítima. Quieto ali, sem alegria ou tristeza, sem prazer ou dor, sem nenhum movimento nascente que me direcionasse para uma possível fuga, suspensos os julgamentos, apenas vendo a ignorância, o medo e o sofrimento.

Amigo, acorda! Tens algo a dizer?

Sim. Não estou preparado e toda a minha vida, vejo, baseia-se na ânsia de ir de abrigo em abrigo na busca incessante de um lugar seguro, de algo permanente, de conforto e salvação. Mas, cria eu, estar buscando a verdade e a felicidade.

Nunca vamos à verdade, ela que vem até nós e a felicidade não é algo que se conquiste, é preciso compreensão. Da virtude da compreensão carecemos. Ouvi, depois do que você disse, sinto-me tranquilo em expressar com toda a coragem e liberdade, diante o amigo e, com ele comungar, meus pensamentos e tudo o que se passa em meu coração. É assim mesmo?

Sim.

O que você ama quem você ama o que é que você realmente faz com amor?

Ora, se eu fizesse-me essa pergunta antes de vir até à rua caminhar, saberia o que responder-te, porém, digo sem vergonha, estou inseguro, não sei o que falar.

Porque haveria de se ter vergonha ao declarar sua insegurança, será porque todos se gabam do quão seguros são? Em verdade, os que se dizem "seguros", nunca poderão compreender nada. Não preocupemo-nos em falar, nem em dizer tudo o que nos vem à cabeça, cuidemos, sim, de pensar no que formos dizer, porque uma opinião falsa pode deixar-nos doentes, feridos, descompassados, esquecidos, se não estivermos apercebidos e assim apercebidos pudermos desfazer seu bruxedo. Ficamos suscetíveis a estas influências quando estamos cegos de medo e, consequentemente, na busca de completude e segurança. O que principalmente é produzido quando assim agimos, é o que se chama de autoridade. E, vê, tu que criastes isso, esse mal, fruto de vosso medo. Não tens a quem culpar, tu que oferecestes a cabeça, o coração, os braços e os pés. Isso porque desejas consolo e ardentemente sua salvação individual.

De fato, assim é, meu caro senhor. E que estranha troca, insensata troca, a salvação pela liberdade, quando a liberdade haveria de ser a única salvação.

Dizei-me, como é que podeis conhecer a ti mesmo, se não há amor?

Só onde há amor, há real compreensão?

Sim. Ainda não reparastes que, quando estais a fazer algo que realmente amas fazer, algo que não não podes deixar de fazer, quando nada ao derredor pode distrair-lhe, quando nada dentro de ti pode influenciar-te, não reparastes que quando isso acontece, estás todo ali, por inteiro, está ali o que é, o que és – e assim o amor simplesmente floresce, todo o sofrimento arrefece, então é que vem a compreensão, isso, sem que nem mesmo precisasses invocar “por quê”? Se não há amor no coração, não podes compreender as coisas, os outros, nem a ti mesmo.

Assim é quando retemos apenas o essencial.

Exato, quando negas positivamente todo o apego. Só então há realmente dedicação, apercebimento, aprendizado, criação. No mais das vezes ao buscar desapegar-nos das coisas e das pessoas, agimos visando desvencilharmo-nos das ilusões, agir assim só causa dor e enfim frustração. Quase sempre ao buscarmos nos refugiar do mundo é quando realmente nos entranhamos nele, nos perdemos entre tantas coisas, sem espaço e nos prendemos em tantos laços falsos.

Estou terrificado, senhor, pode muito bem ser que eu nunca tenha amado nada nem ninguém.

Só tu podes descobrir.

Será terrível.

Sim, porque tens horror à vacuidade da qual tu foges sem cessar, o vazio que não queres perceber, o vazio do que chamamos de “existir”, no qual estás a se debater, claro, sem êxito, todo esforço é vão, apenas dispêndio de energia.

Mas, como enfrentar toda essa aversão?

Sem “como” nem “por que”, não invoques, não provoques, não postergue. Não é assim o amor? Como a rosa, sem motivo? Não crie mais conflito, pois de conflitos não careces mais, disso estás farto. Não crie oposição.

Dizes então que devo apenas observar esta compulsão?

Sim, é isso mesmo.

E quando isso acontecer, esta serena apreensão, saberei o que fazer?

É o que achas?

Sim.

Assim é. Não haverá escolha, simplesmente agirás, não reagirás, não mais se debaterás ignobilmente.

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