"De moleque sempre tive curiosidade em
compreender o que era em mim que fazia com que os pássaros revoassem e não
permitissem acariciá-los ou o que era aquilo, neles mesmos, achei o mundo por
demais misterioso de fundos falsos. Que era isso que se designavam
"homem", assim é que me designaram, mas sempre fui cá dentro
inquieto...".
Vai já não sei quanto tempo que
escrevi este trecho num conto; hoje, sentado nesta cadeira, junto desta mesa,
dentro desta casa aos pés desta serra, alturas que muito caminhei, ao som da
chuva dedilhando o telhado e as janelas, vi um pequeno pássaro, de asas negras
como a noite e amarelo-vivo no peito e na cabeça como a luz solar do findar da
tarde amena, ele pousou numa delas querendo entrar, mas, fechada, o vidro o
impediu.
O pequenino saltou de uma em uma
procurando em vão um vão. De repente, a meninice saltou do baú antigo e veio
brincar nos meus olhos, no peito uma profunda afeição, nas mãos a quentura
fresca do frêmito de um voo. Paro e digo “não
sei” o que é isto.
Neste fim de tarde, silêncio de
chuva, não apenas me pergunto o que é isto, mas também o que é que me levava a
querer pegar os pássaros, acaricia-los e tudo o mais que uma criança pode
querer com e de um pássaro. “não sei”.
Todo este movimento em ação, o
movimento da própria vida que é sempre renovação, que é sempre criação, rio da
vida que abarca a tudo e repleto de tudo nunca deixa de ser o que é e o que é é
sempre novo, não uma mera novidade comparada com o velho, não uma continuação
do velho, mas sempre novo, único. Todo este fluir:
E, sim, o velho sábio já dizia que
disso com o que mais con-vivemos é do
que mais di-vergimos. Ai! E nosso
coração tão vazio, tão seco, desesperado. Como pode isso?
Digo “nosso” coração e não digo
bem, porque afinal, é o coração humano, não meu seu deles nossos, porque
afinal, é o sofrimento de cada um e de todos nós, não há o seu mundo e o meu
mundo, tudo isso é sonho, ilusão, medição. Minha alma, sua alma, minha consciência,
sua consciência.
Penso que no fundo, está este amor
sem tamanho e sem valor, esta grande afeição, esta incansável delicadeza e
ternura para com tudo, esta grande paixão da vida, mas também havia e há ainda
todo este isolamento e neste isolamento o medo, o sofrimento, esta sede
aparentemente sem-fim de preenchimento.
Sinto que o caso dos pássaros pode
ser transferido para tudo.
Não basta que eu me aproxime com
respeito e lhe aproxime a mão, não basta que eu diga para mim mesmo, sou uma
pessoa boa, não sou violento, muito menos para o pássaro, não quero lhe
machucar. Posso repetir por muitas e muitas vezes isso, assim como fiz quando
criança. Nada disso é capaz de destruir o que nos separa. Sim, podeis claro,
dia após dia, deixar-lhes alimento num determinado local e ir ter com eles,
porém, de fato, será que nossa relação com eles teria mudado? E, enquanto
houver isso que nos separa e nos faz divergir, não pode haver beleza, não pode
haver comunicação, isto é, comunhão.
Não se trata de alterar as minhas relações com
os pássaros. Mas sim, de revolucionar meu próprio viver como um todo, assim,
naturalmente, todas as minhas relações, com todas as coisas, mudarão de fato.
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