segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Coisa de criança

"De moleque sempre tive curiosidade em compreender o que era em mim que fazia com que os pássaros revoassem e não permitissem acariciá-los ou o que era aquilo, neles mesmos, achei o mundo por demais misterioso de fundos falsos. Que era isso que se designavam "homem", assim é que me designaram, mas sempre fui cá dentro inquieto...".

            Vai já não sei quanto tempo que escrevi este trecho num conto; hoje, sentado nesta cadeira, junto desta mesa, dentro desta casa aos pés desta serra, alturas que muito caminhei, ao som da chuva dedilhando o telhado e as janelas, vi um pequeno pássaro, de asas negras como a noite e amarelo-vivo no peito e na cabeça como a luz solar do findar da tarde amena, ele pousou numa delas querendo entrar, mas, fechada, o vidro o impediu.

            O pequenino saltou de uma em uma procurando em vão um vão. De repente, a meninice saltou do baú antigo e veio brincar nos meus olhos, no peito uma profunda afeição, nas mãos a quentura fresca do frêmito de um voo. Paro e digo “não sei” o que é isto.

            Neste fim de tarde, silêncio de chuva, não apenas me pergunto o que é isto, mas também o que é que me levava a querer pegar os pássaros, acaricia-los e tudo o mais que uma criança pode querer com e de um pássaro. “não sei”.

            Todo este movimento em ação, o movimento da própria vida que é sempre renovação, que é sempre criação, rio da vida que abarca a tudo e repleto de tudo nunca deixa de ser o que é e o que é é sempre novo, não uma mera novidade comparada com o velho, não uma continuação do velho, mas sempre novo, único. Todo este fluir:

            E, sim, o velho sábio já dizia que disso com o que mais con-vivemos é do que mais di-vergimos. Ai! E nosso coração tão vazio, tão seco, desesperado. Como pode isso?

       Digo “nosso” coração e não digo bem, porque afinal, é o coração humano, não meu seu deles nossos, porque afinal, é o sofrimento de cada um e de todos nós, não há o seu mundo e o meu mundo, tudo isso é sonho, ilusão, medição. Minha alma, sua alma, minha consciência, sua consciência.
            
        Penso que no fundo, está este amor sem tamanho e sem valor, esta grande afeição, esta incansável delicadeza e ternura para com tudo, esta grande paixão da vida, mas também havia e há ainda todo este isolamento e neste isolamento o medo, o sofrimento, esta sede aparentemente sem-fim de preenchimento.

           Sinto que o caso dos pássaros pode ser transferido para tudo.

          Não basta que eu me aproxime com respeito e lhe aproxime a mão, não basta que eu diga para mim mesmo, sou uma pessoa boa, não sou violento, muito menos para o pássaro, não quero lhe machucar. Posso repetir por muitas e muitas vezes isso, assim como fiz quando criança. Nada disso é capaz de destruir o que nos separa. Sim, podeis claro, dia após dia, deixar-lhes alimento num determinado local e ir ter com eles, porém, de fato, será que nossa relação com eles teria mudado? E, enquanto houver isso que nos separa e nos faz divergir, não pode haver beleza, não pode haver comunicação, isto é, comunhão.

           Não se trata de alterar as minhas relações com os pássaros. Mas sim, de revolucionar meu próprio viver como um todo, assim, naturalmente, todas as minhas relações, com todas as coisas, mudarão de fato.

            A separação sendo destruída não haverá mais esse desejo de pegar os pássaros, nem nada, nem de sermos isso ou não sermos aquilo.

    
           

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